
Hanseníase no extremo oeste catarinense: análise epidemiológica revela desafios para vigilância e controle da doença
Apesar de a região Sul do Brasil não ser considerada endêmica para hanseníase, os dados de incidência no extremo oeste de Santa Catarina, entre 2012 e 2021, apontam desafios significativos na detecção e controle da doença. Essa foi a conclusão central da dissertação do farmacêutico bioquímico Andrei Gustavo Bonavigo, defendida como dissertação do Mestrado Profissional do Programa VigiLabSaúde-Fiocruz, com o título Distribuição espacial e evolução temporal da incidência de hanseníase no Extremo Oeste de Santa Catarina, 2012 a 2021.
Este estudo avaliou a incidência, a distribuição espacial e temporal da hanseníase, em 30 municípios. A pesquisa revelou que, no período analisado, foram registrados 180 novos casos da doença, representando 12,44% das notificações do estado e 2% da região Sul do país. Os dados foram extraídos do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) e analisados sob diferentes perspectivas
A hanseníase é uma doença crônica infecciosa, causada pelo bacilo Mycobacterium leprae, com alta infectividade e baixa patogenicidade, sendo transmitida pelo contato íntimo domiciliar. O tratamento precoce da doença, disponibilizado gratuitamente no SUS no Brasil, evita a evolução dos sintomas que podem acarretar incapacidades físicas irreversíveis e estigmatizantes.
Entre os achados, destacou-se a alta incidência da doença em pessoas com menor escolaridade (63,22%), predominância de casos entre homens (57,78%) e indivíduos acima de 50 anos (60,55%). Além disso, mais de 87% dos casos eram multibacilares, indicando diagnósticos tardios, com uma alta taxa de incapacidade física associada. A distribuição dos casos foi desigual entre os municípios, com cinco deles concentrando mais da metade dos casos novos (55,56%), o que sugere esforços de vigilância mais eficazes nessas localidades.
O estudo também destacou a influência de fatores socioeconômicos. Mais da metade dos municípios analisados apresentava baixo desempenho global, conforme indicadores do Censo Demográfico de 2010, reforçando a necessidade de políticas públicas direcionadas ao fortalecimento das condições de vida e saúde. A análise temporal revelou, ainda, uma redução de casos entre 2015 e 2018, seguida de um aumento entre 2018 e 2021, especialmente entre os mais velhos.
A ausência de clusters significativos, identificada pelo Índice de Moran, e a localização de áreas de baixa incidência por meio da autocorrelação local (LISA) sugerem um padrão complexo de transmissão, que demanda estratégias regionais específicas de vigilância em saúde da hanseníase. Embora o quadro demonstre que Santa Catarina não seja uma região endêmica, a incidência da hanseníase no Sul do Brasil, mesmo considerada baixa, pode ser reflexo de ações precárias na detecção da doença, contribuindo para a manutenção do quadro de doenças negligenciadas no país e favorecendo a cadeia de transmissão.
Andrei defendeu sua pesquisa pelo Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia em Saúde Pública da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz), que faz parte do consórcio para oferta do Programa VigiLabSáude/Fiocruz. O trabalho foi orientado pelo professor e pesquisador Cosme Marcelo Furtado Passos da Silva (ENSP/Fiocruz). A banca examinadora contou com a participação da pesquisadora Raquel de Vasconcellos Carvalhaes de Oliveira, do INI/Fiocruz, e do doutor Luimar de Jesus Santos, da Secretaria Municipal de Saúde de Floriano (PI). O trabalho reforça a necessidade de ampliar ações estratégicas para o controle da hanseníase em Santa Catarina, com foco na detecção precoce e na equidade no acesso a serviços de saúde, especialmente em áreas vulneráveis.