
Dissertação avalia vigilância laboratorial do HIV no Alto Solimões
O Brasil tem avançado no enfrentamento ao HIV, atingindo metas da ONU como parte da estratégia global para controlar a epidemia até 2030. No entanto, desafios persistem em regiões específicas, especialmente em áreas de fronteira, onde barreiras geográficas e sociais dificultam o acesso à saúde. Esse foi o foco da dissertação de Allan Charles Pereira, apresentada no Mestrado Profissional em Políticas Públicas em Saúde da Fiocruz Brasília, que integra o consórcio para oferta do Programa VigiLabSaúde-Fiocruz.
Com o título "Vigilância Laboratorial do HIV no Alto Solimões: análise de cargas virais realizadas em Tabatinga de 2021 a 2023", o estudo abordou a dinâmica do atendimento a pessoas vivendo com HIV (PVHIV) na tríplice fronteira Brasil-Colômbia-Peru, enfatizando os resultados obtidos no Laboratório de Fronteira (LAFRON) de Tabatinga, no Amazonas.
No período analisado (2021-2023), 536 PVHIV foram atendidas no LAFRON de Tabatinga. A maioria dos pacientes era masculina (67,54%) e negra (66,05%), com idade média de 35,36 anos. Indígenas representaram 14,55% dos atendidos, destacando a diversidade étnica da região. Apesar de avanços nos serviços laboratoriais, os números mostraram que a adesão aos exames regulares ainda é um desafio, com percentuais preocupantes de faltas ao longo dos três anos: 45,2% em 2021, 50,6% em 2022 e 37,1% em 2023.
Cerca de 11,5% dos pacientes apresentaram carga viral superior a 200 cópias/mL em 2023, enquanto apenas 2,24% mantiveram carga viral indetectável durante todo o período. Esses dados reforçam a necessidade de ações voltadas à adesão ao tratamento e ao acompanhamento contínuo. A dissertação também destacou a importância de estratégias que considerem as particularidades locais, como campanhas educativas, ampliação do acesso aos serviços de saúde e ações integradas com os países vizinhos. Além disso, recomendou, ainda, o fortalecimento do LAFRON como um ponto estratégico para a vigilância laboratorial e a implementação de políticas públicas específicas para populações vulneráveis da região.
Segundo dados do Ministério da Saúde e do Programa Conjunto das Nações Unidas para o HIV e a aids (Unaids), o Brasil tem ampliado significativamente o diagnóstico e o tratamento do HIV. Em 2023, mais de 90% das pessoas vivendo com HIV conheciam seu diagnóstico, 82% estavam em tratamento e 76% alcançaram a carga viral indetectável. Apesar desses avanços, regiões como o Alto Solimões, com características socioeconômicas e geográficas únicas, enfrentam dificuldades que afetam o sucesso da vigilância e da adesão ao tratamento. Nesse cenário o trabalho de Allan Charles Pereira contribui significativamente para o entendimento da epidemia de HIV no Alto Solimões, oferecendo subsídios para políticas de saúde mais inclusivas e eficazes.
A pesquisa reforça a relevância de abordagens personalizadas para superar as barreiras no enfrentamento ao HIV em áreas de fronteira, promovendo saúde e equidade para as comunidades locais. O estudo foi orientado pelo professor dr. Armando Martinho Bardou Raggio (Fiocruz Brasília), com avaliação do professor dr. José Agenor Álvares da Silva (Fiocruz Brasília) e da dra. Ana Cristina Garcia Ferreira (Hospital Israelita Albert Einstein).