Estudo analisa impacto da inaptidão por sífilis entre doadores nos bancos de sangue de Santa Catarina

Um estudo pioneiro analisou o impacto da inaptidão por sífilis entre doadores de sangue na hemorrede de Santa Catarina entre 2011 e 2023, destacando tanto o panorama epidemiológico da doença quanto suas implicações práticas para a segurança transfusional e a sustentabilidade dos estoques sanguíneos. A dissertação, realizada pelo enfermeiro onco-hemoterapeuta Anderson Odilon dos Santos, apresentada como trabalho de conclusão do Mestrado Profissional do Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia em Saúde Pública da ENSP/Fiocruz, integrante do consórcio para oferta do Programa VigiLabSaúde/Fiocruz, oferece uma análise detalhada das taxas de inaptidão definitiva por sífilis no estado, que por dois anos consecutivos apresentou as maiores taxas de detecção da doença no Brasil.

O estudo identificou que, no período analisado, 8.019 doadores de sangue foram considerados inaptos devido à sífilis, sendo 85,2% na triagem sorológica e 14,8% na triagem clínica. Dos doadores inaptos na triagem sorológica, 60,27% apresentaram resultado reagente em teste treponêmico, sugerindo infecção pregressa. As maiores taxas de inaptidão por sífilis foram registradas em 2012, ano marcado pela introdução do teste treponêmico e pela adoção da inaptidão definitiva pelo Hemocentro do Estado de Santa Catarina (HEMOSC).

O perfil dos doadores inaptos destacou primodoadores (aqueles que doavam sangue pela primeira vez) e mostrou uma expressiva redução de doadores de repetição entre 2011 e 2013. A inaptidão por sífilis foi mais frequente entre homens (53%), jovens de 20 a 29 anos (31,9%), brancos (91,2%) e casados (48,5%). Estudantes, professores e trabalhadores do lar foram as ocupações que apareceram em destaque. Regionalmente, as macrorregiões da Serra Catarinense e da Grande Oeste concentraram as maiores taxas de inaptidão, evidenciando disparidades sociodemográficas.

Os resultados da pesquisa levantam questões cruciais sobre a sustentabilidade dos estoques de sangue em Santa Catarina e a necessidade de equilíbrio entre segurança transfusional e captação de doadores. Entre as recomendações do estudo está a revisão das políticas de inaptidão, com foco na introdução de triagens mais precisas, como exames para confirmar cicatrizes sorológicas em doadores previamente tratados e testes adicionais para garantir que o sangue coletado esteja livre de patógenos ativos.

O estudo também sugere a avaliação do tempo de sobrevivência da Treponema pallidum –  bactéria causadora da sífilis – em condições específicas, com vistas a otimizar procedimentos de armazenamento de sangue. Adicionalmente, destaca-se a necessidade de aprofundar a investigação sobre o impacto das políticas de inaptidão definitiva na captação de doadores, especialmente no contexto de hemocentros que adotam condutas mais restritivas.

Os achados reforçam a importância de adaptações constantes nas práticas de triagem e nas estratégias de captação, garantindo um suprimento de sangue seguro e suficiente para atender às demandas médicas do estado. A pesquisa foi orientada pela Dra. Erica Tatiane da Silva (Fiocruz Brasília) e contou com a participação dos professores Dr. José Agenor Álvares da Silva (Fiocruz Brasília) e do Dr. Daniel Roberto Coradi de Freitas (Ministério da Saúde) na banca examinadora.