Pesquisa destaca avanços e desafios no controle de qualidade do diagnóstico da malária no Amapá

A malária é um problema de saúde pública global. No Brasil, a meta é eliminar a sua transmissão até 2035. O diagnóstico da doença é realizado pelo exame da gota espessa, que determina o tratamento adequado e oportuno, auxiliando na quebra do ciclo de transmissão. Neste contexto, a qualidade do trabalho dos profissionais que realizam os exames é fundamental. No Amapá, o desempenho dos microscopistas de base - responsáveis por operar instrumentos ópticos para realizar diagnósticos - e revisores foi avaliado pela bióloga Wanuyze Guimarães.  Ao analisar o desempenho desses profissionais ela identificou desafios e propôs melhorias para o monitoramento  laboratorial realizado pelo Laboratório Central de Saúde Pública do Amapá (Lacen-AP).

A pesquisa "Análise do Controle de Qualidade Laboratorial da malária, realizado no Lacen-AP, de 2016 a 2022", de autoria de Wanuyze, buscou compreender o papel do controle de qualidade, essencial para monitorar divergências e garantir a precisão diagnóstica, ao comparar as leituras de lâminas entre os microscopistas locais e os revisores do Lacen-AP. Os resultados foram apresentados como trabalho de conclusão do Mestrado Profissional do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas em Saúde da Fiocruz Brasília, que integra o consórcio para oferta do Programa VigiLabSaúde-Fiocruz.

O estudo analisou separadamente 15 municípios, com e sem módulo de revisão. As divergências diagnósticas foram investigadas de acordo com os protocolos estabelecidos pelo Ministério da Saúde, com distinção entre microscopistas de base e revisores municipais. Os resultados mostraram que tanto os municípios com módulo quanto os sem módulo de revisão apresentaram redução das divergências ao longo dos anos. No estudo, Wanuyze utilizou como metodologia o arco de Manguerez que se baseia numa realidade vivida e é pautado em cinco fases: observação da realidade, pontos-chaves, teorização, hipóteses de solução e aplicação à realidade. Além disso, foi calculado o coeficiente de correlação intraclasse (ICC), para verificar a concordância entre os microscopistas dos
municípios e os revisores do Lacen-AP, quanto à detecção de parasitas.

Entre os municípios sem módulo de revisão foram identificadas 258 divergências, incluindo falso-positivas, falso-negativas e erros de espécie e forma. Mazagão foi o único município a ultrapassar o nível de discordância aceitável da OPAS (2%), atingindo 2,5%. O coeficiente de correlação intraclasse (ICC) para esse grupo foi de 0,90, considerado um bom desempenho para detecção de parasitas. Já os municípios com módulo de revisão registraram 355 divergências, sendo 161 atribuídas aos revisores e 194 aos microscopistas de base. Incluindo falso-positivas, falso-negativas e erros de espécie e forma. Embora nenhum município tenha alcançado o nível de discordância aceitável pela OPAS, o ICC de 0,84 indicou uma boa concordância diagnóstica.

“Municípios com atividades antrópicas intensas, como mineração e garimpo, apresentaram maior número de lâminas positivas para malária. Sendo observado que a capital, Macapá, devido à sua melhor infraestrutura de saúde, absorve um grande fluxo de pacientes de outras localidades, incluindo municípios do estado e
ilhas do Pará, dado seu fácil acesso em comparação com Belém”, destacou Wanuyze.

Ao avaliar o desempenho dos microscopistas de base e revisores, considerando os parâmetros microscópicos e macroscópicos, o estudo concluiu que, no geral, através de correções in loco, treinamentos regulares aos microscopistas e distribuição de reagentes de qualidade, o Lacen-AP cumpriu bem sua função quanto ao controle de qualidade diagnóstica microscópica de malária para o estado do Amapá. Os dados da pesquisa mostraram avanços através da redução do número de lâminas insatisfatórias para coloração e confecção da gota espessa e também pela diminuição das divergências ao longo do período do estudo.

O estudo também identificou algumas fragilidades como a lacuna na oferta de cursos para revisores, escassez de registros digitais das supervisões realizadas nos municípios e alto número de lâminas sem condições de diagnóstico. Com o objetivo de aprimorar as práticas e assegurar maior eficiência no diagnóstico, a pesquisadora Wanuyze recomendou a realização de cursos regulares e rigorosos para capacitação de microscopistas de base e revisores, além de supervisões presenciais e o devido encaminhamento dos relatórios PECM aos gestores municipais. Outra medida importante é a atualização contínua dos revisores do Lacen-AP, realizada pelo IEC, com base no Guia Prático CG-PTT, assim como a sensibilização de microscopistas, revisores e  coordenadores de endemias em relação às lâminas SCD.

O trabalho de Wanuyze foi orientado pela professora Roberta de Freitas Campos, pesquisadora e docente da Fiocruz Brasília, e contou Danuza Duarte Costa de Araújo, do Hospital de Urgência de Sergipe (HUSE), como coorientadora. 

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