Estudo indica queda preocupante nas coberturas vacinais de pré-escolares em Tabatinga, no Amazonas

Nos últimos anos, um declínio alarmante nas taxas de vacinação tem sido observado em diversas regiões, levantando preocupações sobre a proteção da população contra doenças evitáveis por vacinação. Um estudo recente realizado em Tabatinga, município localizado na fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, trouxe à luz os desafios enfrentados na garantia do cumprimento do calendário vacinal de pré-escolares, bem como os fatores que contribuem para essa queda. Os resultados revelaram uma realidade preocupante: das 306 crianças avaliadas, várias não estavam em conformidade com o calendário vacinal recomendado. Dentre as vacinas com menor adesão, destacaram-se as doses de reforço para febre amarela, tríplice bacteriana, poliomielite oral, varicela e, notavelmente, a vacina contra a COVID-19. Algumas dessas vacinas registraram taxas de cobertura abaixo de 60%, sinalizando uma lacuna significativa na imunização da população infantil.

Conduzido por Gonçalo Ferreira como trabalho de conclusão do mestrado do Programa de Pós-Graduação em Condições de Vida e Situações de Saúde na Amazônia (PPGVIDA), da Fiocruz Amazônia, o estudo adotou uma abordagem observacional transversal, analisando o status vacinal de crianças em idade pré-escolar matriculadas em instituições públicas de educação infantil na área urbana de Tabatinga. Além da verificação das cadernetas de vacinação das crianças, os responsáveis foram entrevistados em seus domicílios, fornecendo informações sobre comportamento e percepções relacionadas à vacinação. O PPGVIDA/Fiocruz AM faz parte do consórcio formado para oferta do Programa Educacional em Vigilância em Saúde nas Fronteiras (VigiFronteiras-Brasil/Fiocruz).

De acordo com Gonçalo, a desinformação apareceu de forma preocupante nos resultados do estudo. “Embora os responsáveis reconheçam os profissionais de saúde como fontes confiáveis de informação, mesmo avisadas do atraso não levaram a criança para vacinar”, comenta. O estudo identificou que o esquecimento e o medo de reações adversas estavam entre os principais motivos citados para o atraso na vacinação, especialmente em relação à vacina contra a COVID-19. Além disso, crianças cujos responsáveis receberam avisos de vacinas em atraso, ou que retornaram de unidades de saúde sem conseguir vacinar seus filhos, demonstraram maior propensão ao não cumprimento do calendário vacinal.

Diante das descobertas, destaca-se a relevância da atenção primária à saúde na região, enfatizando a necessidade de reestruturação dos serviços e capacitação das equipes de saúde da família. Essas medidas, conforme evidenciado pela pesquisa, são essenciais para a implementação de ações eficazes que assegurem a adesão da população ao calendário vacinal, especialmente em um cenário desafiador, como o de uma região de fronteira trinacional.

Em meio aos esforços para conter a propagação de doenças infecciosas, a promoção da vacinação adequada emerge como uma prioridade, não apenas em Tabatinga, mas em toda a região amazônica. O trabalho “Análise do cumprimento do calendário vacinal em pré-escolares do município de Tabatinga, Amazonas, na tríplice fronteira Brasil, Colômbia e Peru” conduzido por Gonçalo foi o primeiro do Programa VigiFronteiras-Brasil/Fiocruz a ser apresentado presencialmente no Centro de Estudos Superiores (UEA) de Tabatinga (AM). A pesquisa foi orientada pelo professor dr. Fernando José Herkrath, do ILMD/Fiocruz Amazônia, e contou com a avaliação das professoras dra. Maria Luiza Garnelo Pereira (ILMD/Fiocruz Amazônia) e dra. Viviane Rangel de Muros Pimentel (UnB).