Respostas distintas do Brasil, Paraguai e Argentina à pandemia da Covid-19 influenciaram na detecção e nos padrões de distribuição das ondas epidêmicas na tríplice fronteira

A pandemia de covid-19, causada pelo vírus SARS-CoV-2, teve impactos sanitários globais desde sua emergência em 2019, com efeitos desiguais entre países e regiões. Segundo a OPAS, o vírus se espalhou rapidamente, levando a OMS a declarar a covid-19 como pandemia em 11 de março de 2020. Na América Latina, o Brasil foi o primeiro a registrar um caso confirmado, em fevereiro de 2020, quando o Ministério da Saúde declarou Emergência de Saúde Pública de Importância Nacional. A Argentina confirmou seu primeiro caso em 3 de março e, poucos dias depois, o Paraguai.

Diante desse cenário, cinco anos após a maior crise sanitária do século 21, a sanitarista Larissa Djanilda Parra da Luz desenvolveu a tese “Análise espaço-temporal das ondas epidêmicas da covid-19 na tríplice fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina”, que teve como objetivo analisar os padrões de ocorrência da doença nos municípios que compõem as regiões de saúde da tríplice fronteira e identificar agrupamentos das taxas de incidência entre 2020 e 2023, abrangendo 44 municípios dessas áreas. A pesquisa revelou que, apesar de haver uma correlação entre os picos epidêmicos na tríplice fronteira do Brasil, Paraguai e Argentina, localizada no extremo oeste do estado do Paraná, na Região Sul do Brasil, observaram-se diferenças temporais e nas estratégias adotadas por cada nação. Além disso, os desafios enfrentados foram acentuados pela falta de cooperação entre os países no que diz respeito ao controle migratório, aos serviços de saúde e às dinâmicas sociais e econômicas.

A pesquisa desenvolvida por Larissa identificou cinco ondas epidêmicas no Brasil e no Paraguai, e duas na Argentina. A análise de correlação cruzada apontou forte associação temporal entre os países, com coeficientes de correlação de 0,81 entre Brasil e Paraguai (defasagem de -1 semana), 0,93 entre Brasil e Argentina e 0,81 entre Paraguai e Argentina (ambos sem defasagem), indicando sincronização nas dinâmicas epidêmicas da região.

As análises revelaram heterogeneidade na distribuição da incidência de covid-19 entre os municípios da tríplice fronteira, com destaque para a 9ª Região de Saúde do Paraná (Brasil), onde foram identificados grupos estatisticamente significativos em todas as cinco ondas epidêmicas (p < 0,0001), indicando uma concentração persistente de alta incidência.

Apesar da proximidade geográfica e da correlação temporal das ondas epidêmicas, os resultados apontam diferenças marcantes na distribuição espacial da covid-19, influenciadas por fatores como estratégias nacionais de mitigação, capacidade dos sistemas de saúde e a ausência de políticas integradas de vigilância em saúde.
A pesquisa também revelou um pico significativo compartilhado pelas três regiões de saúde entre a Semana Epidemiológica (SE) 49/2021 e a SE 04/2022, com cerca de 10 mil casos confirmados por semana. Aumento que está relacionado à flexibilização das medidas restritivas, à ampliação da cobertura vacinal e à alta transmissibilidade da variante Ômicron. O intenso fluxo intermunicipal, ausência na implementação de medidas farmacológicas e não farmacológicas, além da disponibilidade de recursos e insumos, foram apontados como alguns dos fatores que dificultaram a implementação de medidas padronizadas para contenção do vírus. 

Para identificar os ciclos de transmissão, a pesquisadora fez uso da biblioteca EpidemicKabu, e as análises espaciais utilizaram os índices I de Moran Global e LISA (Indicador Local de Associação Espacial). Também foi utilizada a função de autocorrelação cruzada para avaliar a sincronia temporal das ondas entre os três países.

Ao longo da pandemia, o Brasil contabilizou cerca de 37 milhões de casos e 72702 mil óbitos. Na Argentina, foram registrados aproximadamente 10 milhões de casos e 130 mil mortes, enquanto o Paraguai somou cerca de 775 mil casos e 19 mil óbitos. A nível global, até o mês de abril de 2024 e 2025, foram  registrados 776 milhões de casos confirmados da doença e 7 milhões de óbitos.

Os resultados da pesquisa, em formato de coletânea, deram origem a dois artigos científicos, frutos da coleta, processamento, análise dos dados e discussão dos principais achados do estudo principal. O primeiro artigo, intitulado “Detecção de ondas epidêmicas da covid-19 e suas correlações na região entre Brasil, Paraguai e Argentina, 2020-2023”, identificou um total de 130.197 casos de covid-19 registrados nas três regiões analisadas entre 2020 e 2023, distribuídos em cinco ondas epidêmicas. 

O segundo artigo, “Padrões de distribuição espacial das ondas de incidência da covid-19 na tríplice fronteira entre Argentina, Brasil e Paraguai”. O estudo reforça a importância da identificação e caracterização das ondas epidêmicas nessas regiões, como subsídio fundamental para o planejamento de políticas públicas de vigilância em saúde, especialmente em áreas com elevada mobilidade populacional.

Para a autora do estudo, os resultados mostram a necessidade de fortalecer e pensar estratégias conjuntas para criar uma vigilância integrada, que também leve em consideração o contexto do processo de trabalho. "Acho que a maior dificuldade hoje é a formalização desses espaços de discussão, justamente por conta das diferenças entre os três países e dos aspectos relacionados à diplomacia e relações internacionais. Temos sistemas de saúde distintos, déficit de profissionais, barreiras linguísticas e culturais — são línguas diferentes, formações diferentes, modos diversos de trabalhar. Tudo isso impacta na tomada de decisão e na execução dos processos de trabalho. Ao mesmo tempo em que essa diversidade é uma potencialidade, ela também representa um desafio", refletiu Larissa. 

Este e outros achados foram apresentados como trabalho de conclusão do Doutorado Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública e Meio Ambiente, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, da Fiocruz, que integra o consórcio para oferta do Programa VigiFronteiras-Brasil. O estudo foi orientado pela professora Elvira Maria Godinho de Seixas Maciel e coorientado pelo professor José Ueleres Braga, ambos da ENSP/Fiocruz.

*Crédito da imagem: Freepik