Desmatamento e aumento da temperatura local e suas implicações na morbimortalidade de populações indígenas do estado de Mato Grosso
As Terras Indígenas (TI) ainda são consideradas as maiores áreas de preservação ambiental, com importantes contribuições para preservação de seus territórios e, consequentemente, para o enfrentamento do aquecimento global. Ainda assim, algumas alterações ambientais locais almejando melhores condições de vida pela alteração dos seus modos de vida e de produção de alimentos tem corroborado com impactos negativos das mudanças do clima na saúde nos povos originários. Nesse contexto, esse estudo teve como objetivo avaliar a relação entre o desmatamento e o aumento da temperatura local e sua influência na morbimortalidade da população indígena do estado de Mato Grosso, no período de 2010 a 2020.
Trata-se de um estudo epidemiológico observacional, descritivo, do tipo ecológico com análise dos dados de morbimortalidade e das alterações ambientais (desmatamento e aumento da temperatura) entre 2010 a 2020 nas áreas indígenas do Estado do Mato Grosso, de acordo com os Distritos Sanitário Especial Indígena (DSEI) e em seu entrono. Para análise do perfil de mortalidade das populações indígenas, utilizou-se o indicador mortalidade proporcional e atendimento ambulatorial, segundo as causas da 10ª Revisão da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID-10). A temperatura média diária foi adquirida a partir dos dados modelados ERA5-Land disponíveis pelo European Centre for Medium-Range Weather Forecasts (ECMWF) e os dados de desmatamento a partir do processamento de imagens da plataforma Projeto de Estimativa do Desflorestamento da Amazônia (PRODES) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) Foi desenvolvida uma análise exploratória descritiva do indicador de morbimortalidade proporcional, da taxa de desmatamento, do percentual de área desmatada e do aumento da temperatura média anual, de acordo com áreas dos DSEI's de Mato Grosso e seu entorno. Para a análise de tendência temporal dos indicadores de saúde e do desmatamento optou-se pelo uso do modelo Joinpoint Regression Analysis ou modelo de regressão por pontos de inflexão e para a análise de tendência da temperatura foi realizado um modelo de regressão linear.
Os resultados desse estudo mostraram que o perfil de mortalidade nos DSEI's do estado do Mato Grosso inclui, prioritariamente, mortes por doenças do aparelho respiratório seguida das doenças do aparelho circulatório e doenças endócrinas, nutricionais e metabólicas. Observou-se um aumento da taxa de desmatamento no entorno das áreas indígenas dos DSEI's Kaiapó e Xingu e na dentro da área indígena do DSEI Xavante. As taxas de desmatamento não mostraram influência no aumento de temperatura média, mas observou-se diferenças de temperatura entre as áreas indígenas e seu entorno, sobretudo na área indígena do Xingu. Por fim, esse estudo aponta uma reflexão sobre a qualidade dos dados de saúde nas áreas indígenas do Mato Grosso, sugere uma mudança no perfil de morbimortalidade e mostra as pressões do uso do solo e do aumento no entorno das terras indígenas e do papel de áreas florestais preservadas no resfriamento local
