Epidemia da COVID-19 na população venezuelana refugiada e brasileira no estado de Roraima
Apesar de a epidemia de COVID-19 em Roraima ser considerada uma grande emergência de saúde pública, ainda não se conhece como a população se infectou, adoeceu e quais foram seus desfechos. A ausência desse conhecimento dificulta a elaboração de estratégias de enfrentamento de emergências de saúde pública. O objetivo desse trabalho foi estudar a epidemia de COVID-19 na população de migrantes e refugiados venezuelanos e em brasileiros residentes em Roraima. O período de análise dos dados incluiu os anos 2020, 2021 e 2022, período referente à pandemia da COVID-19. A pesquisa usou dados de migrantes e refugiados venezuelanos e da população brasileira residente em Roraima, incluindo as notificações dos indivíduos que apresentaram sinais e sintomas de COVID-19 e foram notificados no e-SUS Notifica e SIVEP-Gripe.
Comparou-se as características dos casos de COVID-19 confirmados por testes RT-PCR e testes rápidos sorológicos (detecção de anticorpos IgM/IgG), ocorridos no grupo de venezuelanos migrantes e refugiados com aquelas dos casos confirmados entre os brasileiros residentes em Roraima. Os principais achados deste estudo foram: (i) as curvas epidêmicas de COVID-19 entre migrantes e refugiados venezuelanos e brasileiros residentes foram diferentes em relação a magnitude, tempo de ocorrência e gravidade tanto no estado de Roraima como nos municípios de Boa Vista e Pacaraima, se mostrando mais elevadas na população brasileira nos anos de 2020 e 2021, entre os venezuelanos ocorreram picos isolados em 2022; (ii) as distribuições espaciais das epidemias foram distintas, com Boa Vista mostrando incidência muito alta durante todos os anos do estudo e Pacaraima apenas em 2022; (iii) os perfis de adoecimento dos casos diagnosticados entre migrantes e refugiados venezuelanos são distintos dos brasileiros em todo o estado de Roraima e mais precisamente nos municípios de Boa Vista e Pacaraima no período de 2020 a 2022 e (iv) as predições das curvas de incidência acumulada da COVID-19 em Roraima e em Boa Vista foram diferentes daquela observada em Pacaraima.
Nosso estudo revelou que a epidemia foi diferente na população refugiada venezuelana quando comparada com aquela que ocorreu na população brasileira residente em Roraima. Essa diferença é percebida quando se analisa os dados de notificação da COVID-19 no município de Pacaraima, que é a porta de entrada desses migrantes. Se a influência da epidemia dos migrantes não é percebida em todo estado de Roraima, nesse município que recebe esses migrantes no território brasileiro fica evidente que as ondas epidémicas de 2021 e 2022 foram influenciadas por eles. A predição da incidência acumulada da COVID-19 em Pacaraima difere daquela observada na capital e as diferenças dos valores preditos e observados revelam que a epidemia dos migrantes influenciou na epidemia da população brasileira que viveu em Pacaraima entre 2020 e 2022.
