Vigilância da tuberculose e infecção latente da tuberculose considerando a população migrante venezuelana em Boa Vista, Roraima no período de 2018 a 2022

Autor(a)
Fernanda Zambonin
Orientador(a)
José Ueleres Braga
Tipo
Tese
Programa consorciado
Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia em Saúde Pública (PPGEPI)
Categoria do curso
Doutorado Acadêmico
Ano da Defesa
Descrição

A tuberculose (TB) tem se mantido como uma das principais causas de morte por doenças infecciosas no mundo, com aproximadamente 10,8 milhões de casos em 2023. Estima-se que um quarto da população mundial esteja infectada pelo Mycobacterium tuberculosis, sendo a maioria dos casos em forma latente (ILTB), o que representa um desafio silencioso e persistente à saúde pública. No Brasil, a vigilância da ILTB é recente e enfrenta limitações especialmente em contextos de fronteira, como o estado de Roraima, marcado por um intenso fluxo migratório venezuelano. O objetivo geral dessa tese foi avaliar a situação epidemiológica da tuberculose e da infecção latente de tuberculose (ILTB) no município de Boa Vista – RR no período de 2018 a 2022, considerando a migração venezuelana.

Os resultados do presente estudo resultaram em três manuscritos. No primeiro estudo, utilizando metodologia ecológico espacial, foram identificadas distribuições geográficas distintas: a TB concentrou-se nas zonas oeste e sul, enquanto a ILTB apresentou maior incidência na região central. A análise de aglomerados revelou sobreposição parcial entre TB e ILTB e expôs fragilidades na vigilância da ILTB, especialmente em populações negligenciadas, como a população residente em bairros periféricos privada de liberdade. A distribuição da taxa de incidência de ILTB apresentou significância estatística com as áreas com maior proporção de migrantes venezuelanos No segundo estudo, cuja metologia foi um estudo transversal, foi desenvolvido e validado um modelo preditivo para ILTB em migrantes venezuelanos, incluindo preditores socioeconômicas, migratórios, condições de saúde e condições clínicas. O modelo apresentou discriminação moderada (AUC 0,676) e boa calibração, sendo construído um nomograma com potencial para aplicação em triagens nos serviços de saúde, já que a Curva de Decisão Clínica (DCA) apontou que a aplicação deste modelo para prever ILTB acrecentaria mais benefícios do que estratégias de tratar tudo ou de não tratar nada. No terceiro estudo, também utilizando metodologia ecológica, foi estimada a Fração Atribuível Populacional (FAP) dos migrantes venezuelanos para TB e ILTB. Apesar da contribuição relevante, não houve associação estatisticamente significativa entre a FAP e as taxas gerais de incidência, indicando que a migração não é o único fator determinante da carga da doença.

De forma integrada, os três artigos permitiram compreender os padrões territoriais da TB e ILTB, identificar grupos populacionais prioritários e propor ferramentas aplicáveis à vigilância em saúde nos contextos de fronteira para a população de maior risco. Os resultados demonstram que a vigilância da TB e ILTB em contextos de fronteira requer estratégias territorializadas, sensíveis às desigualdades sociais e orientadas por evidências. Esta tese contribui para o avanço do conhecimento sobre a TB e ILTB em populações migrantes, propõe um modelo preditivo inédito no Brasil e oferece subsídios para fortalecer as ações programáticas no SUS, alinhadas com as metas da estratégia global pelo fim da tuberculose