Argentina e Brasil: pesquisa aponta que idade avançada e sedentarismo são fatores de risco para a multimorbidade em ambos os países
A multimorbidade devido a doenças não transmissível, ou seja, a presença de duas ou mais doenças crônicas simultaneamente em um mesmo indivíduo, representa um desafio para os sistemas de saúde, uma vez que a abordagem das condições de saúde de longa duração tem sido historicamente pensada com foco em enfermidades específicas. De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019, a frequência de uso de serviços de saúde foi maior entre aqueles indivíduos com multimorbidade, havendo variações de acordo com o tipo de serviço de saúde e sexo.
Para estimar o predomínio desse tipo de adoecimento em pessoas com 18 anos ou mais, a médica María Romina Cuezzo desenvolveu a tese “Multimorbidade por doenças não transmissíveis na Argentina e no Brasil: associação com fatores de risco e tendência temporal”. Os resultados mostraram diferenças entre os dois países, evidenciando prevalência mais elevada e idade de acometimento menor na Argentina em comparação ao Brasil.
Entre os achados, verificou-se que em ambos os países, há uma maior probabilidade de indivíduos com mais de 60 anos, sedentários e com menor nível de escolaridade apresentarem multimorbidade. Por outro lado, níveis mais elevados de instrução e a ausência de companheiro atuaram como fatores de proteção.
O hábito de fumar apresentou diferenças relevantes quando analisado de forma estratificada por sexo e entre os países, indicando possíveis variações contextuais nos padrões de exposição ao tabagismo.
Em ambos os países, observou-se um aumento significativo da multimorbidade ao comparar o último ano analisado (2018) com o ano de base (2005 e 2006). No entanto, na Argentina, a tendência de crescimento foi constante e não apresentou diferenças entre os sexos, enquanto, no Brasil, o aumento se mostrou significativo entre as mulheres que não possuem cobertura de saúde.
A análise geográfica indicou prevalência ascendente de multimorbidade nas regiões Nordeste, Noroeste, Metropolitana e Pampeana da Argentina, e na região Centro-Oeste do Brasil ao longo de 2005 a 2018. Além disso, as regiões Nordeste da Argentina e Sudeste do Brasil apresentaram as maiores prevalências no último ano analisado, embora com variações entre províncias e estados.
Para chegar a tais conclusões, a doutoranda utilizou pesquisas transversais de ambos os países. Foram utilizadas como fontes secundárias a Pesquisa Nacional de Fatores de Risco (ENFR), da Argentina, e, no caso do Brasil, o Sistema de Vigilância de Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico e a PNS. Em uma primeira etapa foi aplicado um desenho transversal e, posteriormente, adotou-se um enfoque ecológico, que permitiu uma análise descritiva desagregada por províncias/estados e por zonas geográficas.
A análise considerou as condições crônicas: diabetes, hipertensão arterial e obesidade. Além incluir variáveis biológicas (sexo e idade), sociais (nível de instrução, estado civil e cobertura de saúde) e relacionadas ao comportamento (prática de atividade física e hábito de fumar). Os fatores associados foram analisados utilizando um modelo de regressão logística múltipla.
O estudo de Maria Romina Cuezzo evidenciou tanto pontos em comum quanto particularidades entre os dois países, aspectos que devem ser considerados na formulação de políticas de saúde que ultrapassem abordagens centradas em doenças específicas. A autora reforçou a importância de promover um cuidado integral e centrado nas pessoas, levando em conta os contextos locais e regionais. “Diante das consequências negativas da multimorbidade, como a piora na qualidade de vida e o aumento do risco de mortalidade precoce, é fundamental avaliar a associação desse desfecho com variáveis biológicas, sociais e comportamentais”, ressaltou.
Os resultados da tese originaram os artigos: “Fatores associados à multimorbilidade por enfermidades não transmissíveis em Argentina e Brasil, 2018 e 2019” e “Padrões de análise temporal e espacial de multimorbidade. Estudo baseado em medições transversais repetidas, na Argentina e no Brasil (2005 - 2018)”. O trabalho foi desenvolvido no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia em Saúde Pública da ENSP/Fiocruz, que integra o consórcio para oferta do Programa VigiFronteiras-Brasil/Fiocruz; e orientado pela professora Dra. Maria de Jesus Mendes da Fonseca (ENSP/Fioruz).
* Crédito da imagem: Freepik
