COVID-19 no Acre: cidade-gêmea de Assis Brasil apresentou altas taxas de incidência e mortalidade durante a pandemia, aponta pesquisa
Entre as regiões de fronteira do Brasil, historicamente marcadas por fragilidades estruturais nos sistemas de saúde e maior vulnerabilidade a surtos epidêmicos, destaca-se o estado do Acre, cujo território foi fortemente impactado pela pandemia de Covid-19. Localizado na Região Norte e integralmente inserido na Amazônia, o estado é composto por 22 municípios, dos quais quatro são oficialmente reconhecidos como cidades-gêmeas por fazerem fronteira internacional com o Peru e a Bolívia: Assis Brasil, Brasiléia, Epitaciolândia e Santa Rosa do Purus. Nesse contexto de isolamento geográfico, circulação transfronteiriça intensa e desigualdades socioeconômicas persistentes, o novo coronavírus apresentou padrões heterogêneos de disseminação e impacto no território acreano.
Foi nesse cenário que Elisa Mara da Silva Carneiro desenvolveu o estudo intitulado “Vulnerabilidades e espraiamento da COVID-19 nas fronteiras terrestres do Acre: aspectos sociais e epidemiológicos”, no âmbito do Doutorado Acadêmico em Saúde Pública da ENSP/Fiocruz, com o objetivo de analisar a disseminação da COVID-19 nos municípios do Acre entre 2020 e 2022, considerando simultaneamente indicadores epidemiológicos, características sociodemográficas, vulnerabilidades sociais e especificidades territoriais de fronteira.
A pesquisa comparou municípios classificados como cidades-gêmeas e não-gêmeas, evidenciando que as cidades-gêmeas apresentaram maiores taxas acumuladas de incidência, concentração de casos e mortalidade, resultado associado à intensa mobilidade transfronteiriça, à dependência de serviços externos e a desigualdades estruturais históricas. As análises espaciais e estatísticas também demonstraram que municípios mais populosos e com menor capacidade instalada em saúde concentraram níveis mais elevados de vulnerabilidade social e sanitária.
O estudo, de abrangência estadual, identificou que Sena Madureira, Rio Branco e Senador Guiomard apresentaram taxas elevadas de incidência acumulada de COVID-19, correspondentes a 2.146,19; 2.323,55 e 1.481,31 casos por 10 mil habitantes, respectivamente. Em Rio Branco, observou-se forte concentração de casos associada à elevada densidade populacional, maior grau de urbanização e intensa circulação interna. A capital também apresentou, juntamente com Sena Madureira e Acrelândia, taxas de mortalidade mais elevadas, de 4,25; 13,06 e 8,56 óbitos por 10 mil habitantes, respectivamente.
Destaca-se ainda o município fronteiriço de Assis Brasil, cidade-gêmea situada na tríplice fronteira com o Peru e a Bolívia, que registrou taxas particularmente elevadas tanto de incidência (2.781,48 por 10 mil habitantes) quanto de mortalidade (19,75 por 10 mil habitantes), evidenciando o impacto da circulação ampliada de pessoas e das fragilidades estruturais em áreas de fronteira internacional.
No que se refere às características sociodemográficas, os resultados indicaram que as cidades-gêmeas concentraram maior proporção de casos entre a população economicamente ativa, especialmente adultos entre 20 e 59 anos, representando 75,6% dos casos e refletindo padrões de maior mobilidade e inserção em atividades presenciais durante a pandemia. Observou-se ainda maior proporção de casos entre populações indígenas nas áreas de fronteira, bem como predominância de indivíduos autodeclarados pardos, padrão compatível com a composição demográfica do estado e com desigualdades raciais historicamente associadas à maior exposição a riscos sanitários.
Fontes de dados - A pesquisa foi realizada por meio de um estudo ecológico retrospectivo, sob a perspectiva da Vigilância Epidemiológica de Fronteira (VEF), com utilização de dados secundários. Foram integrados indicadores epidemiológicos, sociodemográficos, socioeconômicos, geográficos e sanitários, por meio da construção do Índice de Vulnerabilidade Social à COVID-19 (IVS-Cov), uma adaptação metodológica baseada no Índice de Vulnerabilidade Social (IVS) elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Adicionalmente, foi desenvolvido o IVS-Cov-F, versão do índice que incorpora explicitamente a dimensão fronteiriça, considerando o status de cidade-gêmea como condição territorial associada a padrões diferenciados de mobilidade, acesso a serviços e exposição epidemiológica.
A construção dos índices seguiu sete etapas sucessivas, sendo elas: (1) seleção das variáveis sociodemográficas e estruturais (densidade populacional, renda média domiciliar, proporção de idosos, dependência do SUS e capacidade hospitalar) e epidemiológicas (incidência, mortalidade e letalidade); (2) tratamento e organização das bases de dados; (3) normalização dos indicadores em escala de 0 a 1; (4) construção das dimensões analíticas; (5) cálculo dos índices compostos; (6) classificação em faixas de vulnerabilidade (muito baixa, baixa, média, alta e muito alta); e (7) integração espacial no ambiente R para análise e produção cartográfica.
Os resultados mostraram que os municípios classificados como cidades-gêmeas Assis Brasil, Epitaciolândia, Brasiléia e Santa Rosa do Purus apresentaram aumento relativo dos valores de vulnerabilidade quando comparados ao IVS-Cov tradicional. Destacaram-se Assis Brasil, Epitaciolândia e Plácido de Castro, com valores iguais ou superiores a 3,16, enquanto Marechal Thaumaturgo, Porto Walter e Rodrigues Alves apresentaram os menores valores (2,17). A inclusão da dimensão fronteiriça no IVS-Cov-F ampliou a classificação de vulnerabilidade dos municípios de fronteira, deslocando-os majoritariamente para as classes alta e muito alta.
As informações populacionais e socioeconômicas foram obtidas junto ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e à PNAD Contínua, enquanto os dados epidemiológicos foram extraídos do DATASUS e do Ministério da Saúde (DATASUS) e do sistema e-SUS Notifica, disponibilizados pela Secretaria de Estado de Saúde do Acre (SESACRE). Nas análises descritivas, os dados foram estratificados por sexo, faixa etária, raça/cor, desfecho clínico e condição do município (cidade-gêmea ou não-gêmea). A partir desta tese foram elaborados dois artigos científicos, atualmente em processo de submissão, intitulados “Padrões epidemiológicos da COVID-19 nos municípios do Acre (2020–2022)” e “Vulnerabilidade e COVID-19 no Acre: análise dos índices IVS-Cov, IVS-Cov-F e indicadores epidemiológicos”.
Desenvolvido no âmbito do Programa VigiFronteiras-Brasil/Fiocruz, sob orientação da Professora Dra. Mônica de Avelar Figueiredo Mafra Magalhães (ICICT/Fiocruz), o trabalho destaca a necessidade de políticas públicas específicas para áreas de fronteira, integrando vigilância epidemiológica, cooperação internacional e justiça social, como estratégias centrais para o enfrentamento de emergências sanitárias em territórios amazônicos.
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