Interação entre atividade antropogênica no meio ambiente e mudanças climáticas podem acelerar a propagação da dengue, aponta estudo

A dengue é uma doença endêmica em mais de 100 países. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a estimativa é que 390 milhões de infecções ocorram em decorrência da doença anualmente. O Brasil está entre os países mais afetados. A mobilidade humana pode atuar como agente de propagação da doença, acelerando sua chegada a populações potencialmente suscetíveis, enquanto a modificação da paisagem, o desenvolvimento urbano desorganizado e as mudanças climáticas oferecem novos nichos para a instalação do Aedes aegypti, mosquito vetor, gerando sua expansão para novas áreas. 

Com o intuito de analisar o comportamento da incidência da dengue e sua relação com a atividade humana, ou antropogênica, Guillermo Gabriel Barrenechea desenvolveu a tese “A dengue e sua dinâmica de expansão na era do Antropoceno. Evolução nas Américas, comportamento na faixa de fronteira do Brasil e avanço em direção às latitudes extremas do continente”. Entre os resultados, constatou-se que a incidência anual de dengue apresentou um comportamento diferente a partir de 2005. 

Durante os últimos 28 anos, houve uma tendência ascendente da incidência da arbovirose nas Américas, com picos epidêmicos que se repetem a cada três a cinco anos com certa regularidade. No período de 1980 a 2023, foram notificados um total de 38.213.751 casos de dengue em toda a região das Américas. Os casos registrados no Brasil, entre 2023 e 2024, representaram aproximadamente 83% do total mundial. A sub-região do Arco Sul (formado pelos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) se destacou com o maior número de picos de incidência acumulada, apresentando mais de 300 casos por 100.000 habitantes. 

Em relação à evolução da dengue na faixa de fronteira, ao longo de 2010 a 2024, o trabalho mostrou a existência de variação no padrão de comportamento da dengue: foram registrados pouco mais de 1.600.000 casos, concentrando 50% dos casos do total. Os outros 50% foram acumulados entre 2010 e 2020. A diferença de período com o mesmo volume de casos indica uma aceleração significativa do cenário epidemiológico. A tese aponta que as decisões adotadas no âmbito das políticas públicas de saúde ajudam a explicar o aumento do número de casos durante o período, já que a prioridade foi dada às medidas de vigilância sanitária para conter o SARS-CoV-2 e, durante os períodos mais graves dos casos de dengue, os profissionais de saúde não puderam desempenhar suas funções de forma eficaz, principalmente devido ao isolamento social e às quarentenas.

No que diz respeito ao avanço da dengue em direção às latitudes extremas do continente, o estudo identificou uma rápida expansão da doença para regiões de menor latitude e áreas menos povoadas do Brasil, que até pouco tempo permaneciam livres de transmissão. No primeiro trimestre de 2022, 63 novos municípios passaram a registrar transmissão da arbovirose, sendo metade deles na região Sul, especialmente em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. Nesses estados, o número de municípios com transmissão saltou de um a dois por ano, para dez.

Essa expansão sugere, segundo o estudo, que a barreira geográfica antes criada pelas baixas temperaturas sazonais no Sul do país tenha se deslocado para latitudes mais baixas, possivelmente em razão de condições climáticas mais favoráveis ao vetor. Cenário que pode elevar o risco de co-circulação de doenças transmitidas por vetores em áreas de fronteira.

Outro destaque está relacionado com as temperaturas: as mais baixas do inverno anterior  atuam como um fator de proteção contra a incidência da doença; porém, quando ocorrerem temperaturas um pouco mais altas do que no inverno anterior, esse cenário se converte em um fator de risco, favorecendo o aumento dos casos.

A pesquisa também descreveu o surto ocorrido em Bahía Blanca, principal cidade do distrito homônimo, na província de Buenos Aires, considerado o primeiro mais ao sul do planeta, como uma evidência da circulação dos sorotipos virais de dengue DEN-1 e DEN-2. Entre 1º de janeiro e 10 de junho de 2024, foram notificados 470 casos suspeitos de dengue pela Secretaria de Saúde do município. Destes, 94 foram confirmados por exames laboratoriais, 28 foram classificados como casos importados e 63 como autóctones (nos quais os pacientes declararam não ter viajado para áreas de circulação nos 15 dias anteriores).

Segundo Guillermo, o trabalho mostrou que a interação e a sinergia entre atividades humanas, como a alteração da paisagem natural, e mudanças nas variáveis climáticas podem acelerar a propagação da dengue, conforme previsto por modelos preditivos atuais. “A variabilidade na incidência de dengue nas diferentes regiões que compõem as Américas é resultado de diferentes realidades e contextos epidemiológicos, a compreensão dessa dinâmica é fundamental para entender, por exemplo, os diferentes cenários em nível nacional”

PRODUÇÃO CIENTÍFICA - A tese de Guillermo resultou em três artigos que abordam, em diferentes escalas, a expansão da dengue na região das Américas. A primeira produção realizou um estudo observacional analítico ecológico, examinando seis sub-regiões das Américas (América do Norte, Caribe do Sul e não latino, América Central e México, sub-região andina e Cone Sul) utilizando dados de infecção por dengue da OMS e da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS-PLISA).

O segundo artigo, também de caráter ecológico, descreveu a evolução da dengue na faixa de fronteira do Brasil e analisou sua relação com variáveis climáticas, com dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) e medições referentes aos períodos definidos como inverno anterior e ao verão atual.

Já o terceiro, publicado na revista The Lancet Regional Healthe, evidenciou cenários extremos que demonstraram a expansão da dengue para latitudes extremas do continente americano, propondo um projeto de estudo de surtos com diferentes fontes de dados, o da OPAS, do SINAN para o caso do Brasil e fontes do governo local no estudo de surtos no extremo sul.

A tese foi desenvolvida no âmbito do Programa de Pós-Graduação em em Saúde Pública (ENSP/Fiocruz), que integra o consórcio para oferta do Programa VigiFronteiras-Brasil/Fiocruz. O trabalho contou com orientação do professor dr. Leonardo Soares Bastos (PROCC/Fiocruz).

*Crédito da imagem: Fiocruz Imagens