Influência do material particulado fino (PM2.5) em períodos de queimadas na fronteira Brasil-Bolívia: evidências de impacto transfronteiriço nas doenças respiratórias

Autor(a)
Danila Pequeno Santana
Orientador(a)
Hermano Albuquerque de Castro
Tipo
Tese
Programa consorciado
Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública e Meio Ambiente (PPGSPMA)
Categoria do curso
Doutorado Acadêmico
Ano da Defesa
Descrição

As queimadas na Amazônia intensificaram-se nas últimas décadas, ampliando a emissão de poluentes atmosféricos. Entre os poluentes emitidos, o material particulado fino (PM2.5) destaca-se por sua alta toxicidade e capacidade de dispersão, afetando populações distantes das áreas de queima. Esta tese analisou de forma inédita os efeitos do PM2.5 em períodos de queimadas sobre a morbidade hospitalar respiratória na fronteira Brasil–Bolívia (2015–2019), integrando abordagens espaciais e temporais para compreender padrões de exposição e risco à saúde. A pesquisa foi estruturada em três eixos. O primeiro consistiu em uma revisão integrativa da literatura sobre os impactos do PM2.5 de queimadas na saúde humana, que evidenciou lacunas em países de baixa e média renda e ressaltou a necessidade de esforços conjuntos entre nações para promover a justiça climática. O segundo eixo envolveu análises espaciais do PM2.5 e fatores meteorológicos por meio do índice de Moran local e global, identificando agrupamentos significativos de alto risco ao sul da área de estudo, especialmente em Rondônia, norte do Mato Grosso e no departamento boliviano de Santa Cruz. Os aglomerados Alto–Alto ultrapassaram fronteiras nacionais, com correlação expressiva entre o PM2.5 dos dois países: aumentos de até 10,95 vezes nas concentrações brasileiras associados ao PM2.5 boliviano e 18,51 vezes no sentido inverso. O efeito mais intenso do PM2.5 proveniente da Bolívia relacionou-se à predominância e maior velocidade dos ventos direcionados ao Brasil, observada na Pollution Rose O terceiro eixo aplicou modelos estatísticos e espaciais, incluindo regressões lineares generalizadas (GLM) e com defasagens distribuídas (DLNM), com e sem interação com direção do vento e Regressão Geograficamente Ponderada (GWR). Os resultados demonstraram correlações positivas significativas entre os níveis de PM2.5 do Brasil e a morbidade respiratória na Bolívia e vice-versa. Incrementos no PM2.5 brasileiro elevaram o risco relativo (RR) de doenças respiratórias na Bolívia em até 1,29 vezes (IC95%: 1,05–1,59) na mesma semana e o PM2.5 boliviano 1,37 vezes (IC95%: 1,04–1,79) no Brasil uma semana após. Crianças menores de 5 anos e idosos foram os mais vulneráveis, refletindo desigualdades ambientais e sanitárias. O PM2.5 brasileiro aumentou o RR em 1,54 vezes para pneumonia e 1,53 vezes para infecção de vias aéreas superiores (IRAS) em crianças bolivianas, enquanto o PM2.5 boliviano elevou o RR de IRAS para 2,02 vezes em crianças e idosos uma semana após, associado à direção do vento para o Brasil. A GWR evidenciou padrões locais de risco mais elevados ao sul da fronteira, indicando heterogeneidade espacial e influência combinada do PM2.5 local e transfronteiriço. A integração de análises estatísticas robustas revelou padrões consistentes de risco elevado e evidenciou o papel do PM2.5 transfronteiriço na carga de doenças respiratórias. Os achados reforçam a necessidade de políticas públicas conjuntas voltadas à mitigação das queimadas, monitoramento integrado da qualidade do ar e fortalecimento da vigilância em saúde ambiental. Em um contexto de crescente pressão sobre a Amazônia, esta tese demonstra que a poluição atmosférica ultrapassa fronteiras políticas e exige respostas cooperativas, interdisciplinares e baseadas em evidências científicas para a proteção da saúde coletiva.