Evolução histórica da dengue na Tríplice Fronteira entre Argentina, Brasil e Paraguai: estudo destaca a necessidade de intercâmbio de dados e adoção de indicadores sensíveis

Há mais de duas décadas, a dengue ressurgiu na Tríplice Fronteira entre Argentina, Brasil e Paraguai, consolidando-se como um problema de saúde pública na região. De acordo com dados da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), os países mais afetados em 2024 foram o Brasil, responsável por 83% dos casos registrados nas Américas, seguido pelo Paraguai (5,3%) e pela Argentina (3,7%). Juntas, essas três nações concentraram 92% dos casos e 87% dos óbitos por dengue.

Para ampliar o conhecimento sobre a evolução histórica da dengue como problema de saúde coletiva nos municípios de Puerto Iguazú (Argentina), Foz do Iguaçu (Brasil), Ciudad del Este, Hernandarias, Minga Guazú e Presidente Franco (Paraguai), localizados na Tríplice Fronteira, o médico infectologista argentino Esteban Manuel Couto, discente do Programa VigiFronteiras-Brasil/Fiocruz que obteve progressão direta do mestrado para o doutorado, desenvolveu a tese “Dengue en la triple frontera entre Argentina, Brasil y Paraguay: dinámica temporal y comparación entre municipios según la caracterización del sistema de salud y vigilancia” (Dengue na tríplice fronteira entre Argentina, Brasil e Paraguai: dinâmica temporal e comparação entre municípios de acordo com a caracterização do sistema de saúde e da vigilância).

Considerando o período entre 2009 e 2023, os resultados indicaram que a dengue apresentou uma dinâmica transfronteiriça marcada por ciclos bianuais, com temporadas de alta magnitude (2010–2011, 2015–2016, 2019–2020) precedidas por períodos de menor intensidade, em um contexto de sazonalidade acentuada. A análise apontou para a existência de dois perfis epidemiológicos distintos: um perfil epidêmico, observado em Puerto Iguazú (Argentina), caracterizado por surtos intensos intercalados por períodos sem transmissão; e um perfil persistente, identificado em Foz do Iguaçu (Paraná, Brasil) e, em menor grau, em Ciudad del Este (Paraguai), onde centros urbanos de maior porte sustentam a circulação viral e podem amplificar surtos, possivelmente em função da mobilidade regional e da introdução de diferentes sorotipos.

Os registros de dengue foram analisados por meio de uma estratégia que combinou o uso de dados abertos e solicitações de acesso à informação pública. Para assegurar a comparabilidade entre as informações e diferentes jurisdições, aplicou-se um protocolo de harmonização baseado em regras extraídas de documentos históricos e normativos. Na análise, o trabalho abordou três componentes centrais da dengue como problema de saúde pública na área fronteiriça: a heterogeneidade dos sistemas de saúde; os sistemas de vigilância epidemiológica, analisados a partir de seus atributos; e a dinâmica de transmissão, examinada por meio de indicadores epidemiológicos e de séries temporais. 

A partir do período de 2019 a 2020, observou-se uma circulação quase contínua do vírus na margem brasileira. Entre 2021 a 2023, emergiu em Foz do Iguaçu um padrão excepcional, marcado por intensidade incomum, especialmente no período de 2022 a 2023, sem repercussão equivalente nas demais margens da fronteira. Essas diferenças, segundo o estudo, refletem a heterogeneidade dos sistemas de vigilância e de saúde, além de mudanças operacionais no período, como a adoção da vigilância sentinela e os impactos da pandemia de Covid-19. O cenário, de acordo com Esteban, reforça a necessidade de intercâmbio transfronteiriço de dados e da adoção de indicadores sensíveis, como o número reprodutivo efetivo, essenciais para antecipar aumentos na transmissão e orientar ações coordenadas de prevenção e controle.

Foram identificadas diferenças relevantes entre os sistemas de saúde dos municípios analisados, com destaque para a maior robustez observada em Foz do Iguaçu (Brasil). O lado brasileiro apresentou melhores indicadores de oportunidade na vigilância, embora tenha havido deterioração recente na qualidade das informações. Após 2020, a oportunidade dos dados melhorou, inclusive durante a pandemia de Covid-19. Quanto à organização da cobertura assistencial, observam-se diferenças estruturais entre os países. No Paraguai, cerca de 30% da população está coberta pelo Instituto de Previsión Social (IPS). Na Argentina, o sistema é segmentado e a cobertura varia entre 40% e 60%, dependendo do subsistema considerado, incluindo a cobertura pública e o Programa de Atenção Médica Integral (PAMI), destinado a aposentados. Em contraste, o Brasil possui um sistema público de saúde universal, o Sistema Único de Saúde (SUS), que garante cobertura formal a toda a população.

A tese desenvolvida por Esteban resultou em três artigos científicos que exploram dimensões complementares da dengue na Tríplice Fronteira: o Artigo 1, “Harmonização retrospectiva de dados de dengue na Tríplice Fronteira (Argentina, Brasil, Paraguai): rumo à comparabilidade (2009–2023)”, discute os desafios metodológicos e as estratégias de padronização das bases; o Artigo 2, “Covid-19 e chikungunya: efeitos na vigilância da dengue na Tríplice Fronteira Argentina–Brasil–Paraguai”, analisa os impactos da pandemia e da cocirculação de arboviroses sobre a vigilância; e o Artigo 3, “Comparação de séries temporais de dengue na Tríplice Fronteira entre Argentina, Brasil e Paraguai (2009–2023)”, sistematiza a análise comparativa da dinâmica epidemiológica nos três países.

O trabalho foi desenvolvido como trabalho de conclusão do doutorado em Epidemiologia em Saúde Pública, da ENSP/Fiocruz, integrante do consórcio para oferta do Programa VigiFronteiras-Brasil/Fiocruz. A pesquisa foi orientada pelo professor. Dr. Luiz Antonio Bastos Camacho (ENSP/Fiocruz) e contou com coorientação do professor Dr. Leonardo Soares Bastos (PROCC/Fiocruz) e da professora. Dra. Zoraida del Carmen Fernandez Grillo (Fiocruz/MS).

*Crédito da imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil