Uma perspectiva de Saúde Única para vigilância das doenças zoonóticas na fronteira franco-brasileira
As zoonoses figuram entre os principais desafios da saúde pública global, especialmente em regiões amazônicas, onde fatores ambientais, sociais e institucionais ampliam a vulnerabilidade sanitária. Esta tese analisou os padrões espaciais e temporais da leishmaniose tegumentar (LT) e dos atendimentos antirrábicos humanos no município de Oiapoque (Amapá), entre 2013 a 2022, identificando fatores associados à ocorrência desses agravos e discutindo desafios e oportunidades para a implementação da vigilância em Saúde Única em um contexto transfronteiriço. Trata-se de um estudo ecológico, de abordagens quantitativa e qualitativa, fundamentado nos princípios da Saúde Única. A etapa quantitativa utilizou dados do SINAN, além de indicadores sociodemográficos, econômicos e ecológicos de bases públicas oficiais. As análises incluíram estatística descritiva, correlação de Pearson e mapeamento espacial. A etapa qualitativa envolveu entrevistas semiestruturadas e a realização de um workshop participativo internacional com atores da área da saúde humana, animal e ambiental, além de representantes da sociedade civil, cujo dados foram sistematizados em matrizes FOFA. Foram notificados 855 casos de LT, com importante proporção de casos importados (55,4%), associados a atividade de garimpo, com provável infecção em território da Guiana Francesa. Os 398 casos autóctones, apresentaram taxa média de 151,5 casos/100 mil hab.ao ano, com picos em 2020 e 2021. A série temporal mostrou-se estacionária, com sazonalidade entre janeiro e março. Predominaram os casos entre homens (76,4%), com idade entre 20 e 39 anos (47%), baixa escolaridade e maioria parda (66,6%). Na zona rural, destacou-se a maior frequência entre indígenas (55,2%). A forma cutânea predominou (99%) e a taxa de cura foi 82,9%. Observaram-se associações significativas positivas com a densidade populacional, população residente e idosa, PIB per capita, temperatura e precipitação, e negativas com população rural e proporção de crianças. As análises espaciais indicaram associação com desmatamento, solo exposto e fragmentação florestal. Foram registrados 345 atendimentos antirrábicos humanos, com predominância de homens adultos jovens (29,3%), pessoas pardas (65,2%) e baixa escolaridade (29,9%). Cães foram responsáveis por 91,6% das agressões, sendo metade dos animais classificados como suspeitos ou desconhecidos. Houve alta incompletude nos registros sobre indicação de soro antirrábico (66,1%). A taxa média foi de 127,8 atendimentos por 100 mil habitantes, com três picos ao longo do período, alcançando 465,8 em 2022. Houve correlações positivas significativas com densidade demográfica, população residente, idosos, PIB per capita, população de cães, precipitação e umidade, e negativas com população rural e indígena, crianças, saneamento e temperatura. Cerca de 97% dos atendimentos ocorreram na zona urbana coincidindo com intensa antropização do território. A matrizes FOFAs confirmaram a baixa integração entre as vigilâncias humana, animal e ambiental, coexistindo com potencialidades de cooperação intersetorial e científica. Conclui-se que a implementação da Vigilância em Saúde Única, por meio da criação de um Comitê Local de Saúde Única e de um planejamento estratégico horizontal, constitui via essencial para mitigar o risco e reduzir desigualdades em saúde, oferecendo um modelo de gestão aplicável a outros territórios de fronteira com desafios socioambientais semelhantes.
