Pesquisa indica vigilância mais consolidada das arboviroses no Brasil e fragilidades no registro desses agravos na Argentina

A fronteira entre Brasil e Argentina é uma região de grande importância estratégica e econômica, além disso, funciona como uma unidade epidemiológica, caracterizada pela presença de diversas enfermidades transmitidas por mosquitos, as chamadas arboviroses. Segundo dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2025 o Brasil respondeu por quase 96% dos casos de chikungunya confirmados nas Américas.

Com o objetivo de identificar áreas de maior risco e fatores associados à circulação dessas doenças, o médico argentino Felix Alejandro Ramirez desenvolveu a tese intitulada “Análisis de la tendencia espacio-temporal de dengue, Zika y chikungunya en la frontera Argentina-Brasil entre los años 2012 a 2023” (Análise da tendência espaço-temporal da dengue, zika e chikungunya na fronteira entre a Argentina e o Brasil entre os anos de 2012 e 2023). Os resultados indicam que, na Argentina, antes da implementação do Sistema Nacional de Vigilância Sanitária (SNVS 2.0), havia diferenças entre as províncias de Corrientes e Misiones quanto à completude por componente, embora a pontualidade fosse, de modo geral, elevada; a partir de abril de 2018, observou-se melhora acentuada e mais homogênea da completude. No Brasil, a completude foi excelente para variáveis básicas e datas, porém persistiu deficiência na variável “município de infecção”, mantendo-se, ainda assim, elevada oportunidade do sistema (≥90%). 

Em relação à consistência, a Argentina apresentou maiores problemas em datas-chave entre 2018 e 2023, especialmente ausência de registros de internação e óbito, enquanto no Brasil essas falhas foram menos frequentes e os óbitos, em sua maioria, continham data de falecimento. O Valor Preditivo Positivo (VPP) permaneceu baixo em ambos os países. Observou-se também a transição de casos exclusivamente de dengue (2012–2014) para conglomerados mistos a partir de 2015, evidenciando crescente co-circulação de chikungunya e zika, o que reforça a complexidade epidemiológica na região de fronteira.

O estudo ecológico observacional de tipo analítico realizado por Alejandro incluiu 69 municípios fronteiriços da Argentina (nas províncias de Misiones e Corrientes) e do Brasil (nos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul). As fontes de dados utilizadas incluíram o Sistema Nacional de Vigilância da Saúde (SNVS) das províncias de Corrientes e Misiones. Os dados populacionais dessas províncias foram obtidos a partir do Censo de 2010, das projeções populacionais baseadas nesse censo e das informações do Censo de 2022. Já os dados socioeconômicos foram coletados junto ao Instituto Nacional de Estadística y Censos (INDEC) argentino.

Os dados populacionais por municípios dos estados de fronteira do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina foram obtidos a partir das projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Já os dados epidemiológicos foram coletados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) desses mesmos estados.

A pesquisa resultou em quatro artigos científicos: “Análise comparativa da Vigilância Epidemiológica de dengue na Fronteira Argentina-Brasil de 2012 a 2023”, que será submetido a um capítulo especial da revista Ciência & Saúde Coletiva sobre vigilância em fronteiras; “Dengue em territórios de fronteira: análise de tendências em municípios limítrofes entre Argentina e Brasil (2012–2023)”; “Dengue na Fronteira Argentina-Brasil (2012–2023): expansão sustentada, clusters persistentes e o papel do desemprego como determinante espacial”; e “Municípios de fronteira como unidade epidemiológica: análise espaço-temporal de dengue, chikungunya e Zika na faixa Argentina-Brasil (2012–2023)”.

Os resultados apontam para a necessidade de enxergar a fronteira entre Argentina e Brasil como uma única unidade epidemiológica. Nesse contexto, fortalecer a vigilância integrada é, segundo o trabalho, uma estratégia essencial para respostas mais eficazes. Além disso, a tese reforça que o enfrentamento do problema não deve se limitar ao controle do mosquito. Também é preciso avançar em políticas públicas que atuem sobre os determinantes sociais, como emprego, saneamento e condições de moradia, reduzindo as vulnerabilidades da região.

O estudo foi desenvolvido no âmbito do Doutorado em Saúde Pública e Meio Ambiente da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, integrante do consórcio responsável pela oferta do Programa VigiFronteiras-Brasil/Fiocruz. A pesquisa foi orientada pela Profa. Dra. Andréa Sobral de Almeida (ENSP/Fiocruz) e coorientada pelas Profas. Dras. Eduarda Angela Pessoa Cesse (VPEIC/Fiocruz) e Zoraida del Carmen Fernandez Grillo (Fiocruz Mato Grosso do Sul).

*Crédito da imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil