Microplanejamento no Mato Grosso do Sul: ferramenta se mostra relevante para qualificação das ações de vacinação em áreas de fronteira
Apesar de a imunização ser a intervenção mais custo-efetiva para reduzir a mortalidade e a incidência de doenças infecciosas, a partir de 2016 observou-se uma queda nas coberturas vacinais no Brasil, acompanhada pelo surgimento de surtos de doenças infecciosas. Diante desse cenário, o Ministério da Saúde propôs, em 2023, a retomada de altas coberturas vacinais com homogeneidade entre os territórios, por meio de um conjunto de iniciativas, entre as quais se destaca o microplanejamento (MP).
Com o objetivo de realizar uma análise estratégica do microplanejamento das Atividades de Vacinação de Alta Qualidade (AVAQ) do Ministério da Saúde em municípios de fronteira (cidade gêmea) no estado de Mato Grosso do Sul, a enfermeira Angélica Dalla Vechia Biolchi Saturnino desenvolveu a tese “Microplanejamento para a vacinação em cidades gêmeas do estado de Mato Grosso do Sul: uma análise estratégica”. Entre os 79 municípios de Mato Grosso do Sul, o estudo concentrou-se em Ponta Porã, cidade gêmea de Pedro Juan Caballero, localizada no Paraguai, sendo um dos sete municípios do estado que fazem fronteira internacional com o Paraguai e a Bolívia.
Os resultados evidenciaram que o microplanejamento se destaca como ferramenta fundamental para a organização sistemática das atividades de imunização, permitindo identificar e priorizar áreas de baixa cobertura com base em critérios de risco, especialmente em regiões de fronteira, que apresentam maior vulnerabilidade à disseminação de doenças.
Segundo o estudo, a mobilidade transfronteiriça e a interdependência entre cidades de fronteira geram desafios específicos para a gestão da vacinação, como flutuação populacional, sobreposição de cidadanias, assimetrias institucionais e dificuldades na definição da população-alvo, no registro das doses e no monitoramento de indicadores. Além disso, verificou-se que os instrumentos previstos no caderno de microplanejamento não foram utilizados de forma sistemática no município e em suas unidades de saúde, resultando na ausência de cálculos padronizados de metas, de registros formais para identificação de áreas prioritárias e no enfraquecimento das ações de monitoramento, avaliação e comunicação.
A evolução das coberturas vacinais revelou um padrão de recuperação expressiva após 2020, ano em que o município analisado apresentava um cenário crítico, com percentuais de cobertura entre 44% e 70%. Esse panorama começou a ser revertido em 2021, com melhora progressiva dos indicadores, e em 2022 e 2023 observou-se um pico de desempenho.
Já no ano de 2024, vacinas com esquemas multidoses, como a pentavalente e a Vacina Inativada Poliomielite (VIP), apresentaram leve queda, permanecendo abaixo das metas estabelecidas. A taxa de abandono evidenciou um período de elevação, com picos em 2021 para a maioria das vacinas analisadas. A VIP apresentou queda progressiva entre 2020 e 2023, mantendo-se posteriormente em patamar estável. Ainda assim, a VIP, a pentavalente e a meningocócica C registraram valores acima do limite considerado ideal (5%), sugerindo a necessidade de fortalecimento das ações de vigilância e da implementação de estratégias como a busca ativa.
Para a coleta e análise dos dados, foram utilizados diferentes procedimentos metodológicos: análise documental de normativas e ferramentas operacionais do Programa Nacional de Imunizações (PNI) e do microplanejamento das AVAQ, análise de dados secundários de sistemas oficiais (SI-PNI, e-SUS e SINASC), com foco nas coberturas vacinais e taxas de abandono em menores de um ano, além da realização de doze entrevistas semiestruturadas com gestores e profissionais envolvidos na condução do PNI e na operacionalização do microplanejamento.
As temáticas emergentes das entrevistas foram posteriormente articuladas com o referencial teórico e documental, resultando na construção de cinco categorias analíticas: preparação e indução, análise da situação de saúde, planejamento e programação, supervisão e avaliação e monitoramento.
Ao adotar a análise estratégica articulada a um modelo lógico operacional, a tese contribui para a compreensão sobre a implementação de estratégias de imunização em territórios transfronteiriços e oferece subsídios para o aprimoramento de políticas públicas voltadas às cidades gêmeas.
O estudo foi desenvolvido no âmbito do Doutorado Acadêmico em Saúde Pública, da ENSP/Fiocruz que integra o consórcio para oferta do Programa VigiFronteiras-Brasil/Fiocruz, sob orientação do Prof. Dr. Gustavo Corrêa Matta (ENSP/Fiocruz) e coorientação da Prof.ª Dra. Juliana Fernandes Kabad (ENSP/Fiocruz).
*Crédito da imagem: Freepick
