Diferenças sociais, epidemiológicas e de acesso à saúde entre chilenas e bolivianas marcam o perfil da doença de Chagas no Chile
A doença de Chagas permanece como um problema de saúde pública, segundo dados da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Estima-se que 6 a 8 milhões de pessoas convivam com a doença na América Latina. Essa infecção passou a apresentar novas dinâmicas epidemiológicas em países que interromperam a transmissão vetorial domiciliar, como o Chile, onde os migrantes internacionais representam 8,8% da população total, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento Social e da Família. Nesse cenário, a migração internacional oriunda de países ainda endêmicos tem contribuído para a reconfiguração do perfil epidemiológico da doença e para a manutenção do risco de transmissão vertical.
Diante desse contexto, a enfermeira chilena Nayibe Jesús Murillo Fajuri realizou o trabalho intitulado “Enfermedad de Chagas en mujeres de edad fértil y gestantes en Chile: el rol de la migración internacional” (“Doença de Chagas em mulheres em idade fértil e grávidas no Chile: o papel da migração internacional”), grupo prioritário para investigação nos sistemas de saúde. A pesquisadora também avaliou os desfechos neonatais e infantis entre filhos de gestantes infectadas residentes na Região Metropolitana de Santiago, considerando a influência da migração internacional e das desigualdades sociodemográficas associadas.
Os resultados apontaram que de 2020 a 2023, os casos em gestantes concentram-se majoritariamente entre mulheres migrantes (85%), sobretudo bolivianas (79%), com mediana de idade de 32 anos (intervalo interquartil: 28–36). A população boliviana também representa a maior proporção das notificações (67%), enquanto a venezuelana, apesar de constituir o principal fluxo migratório recente, apresenta baixa participação. Geograficamente, observa-se maior concentração de casos no norte do país e na Região Metropolitana de Santiago, com predominância de mulheres bolivianas, seguidas por chilenas.
Além disso, observou-se perda de seguimento em quase 40% das crianças expostas, evidenciando dificuldades persistentes para o encerramento oportuno do processo diagnóstico. O início tardio do pré-natal foi identificado como um dos principais fatores associados a essa perda de acompanhamento. Entre as crianças que completaram o seguimento, foram confirmados casos de Chagas congênita.
Entre 2018 e 2022, as mulheres em idade fértil concentraram 2.572 casos (36,4%) da doença de Chagas no Chile, de um total de 7.074 registros no período, o que evidencia a relevância epidemiológica da triagem sistemática durante os estágios pré-concepcional e pré-natal como uma estratégia custo-efetiva para a detecção precoce e prevenção da transmissão congênita.
A análise por nacionalidade revelou diferenças significativas entre mulheres chilenas e bolivianas em idade fértil em todas as variáveis analisadas: entre bolivianas, predominam a transmissão vetorial (89,4%) e a ocorrência de gestação no momento do diagnóstico (74,4%), enquanto entre chilenas se destacaram a transmissão transplacentária (45,3%) e maior concentração em faixas etárias mais elevadas (45–49 anos).
Mulheres migrantes, especialmente bolivianas, também apresentaram maior vulnerabilidade social e diferenças sociodemográficas em relação às chilenas, incluindo nível educacional, ocupação, setor de atendimento em saúde e condições socioeconômicas do território de residência. Esse contexto está associado a fatores como superlotação domiciliar, pobreza e inserção em empregos informais e precários, além de barreiras para o acesso e a continuidade do cuidado, como a dificuldade de utilizar serviços de saúde sem se ausentar do trabalho, o desconhecimento do sistema de saúde chileno e a barreira idiomática.
Há, ainda, um alerta para o potencial restabelecimento da transmissão vetorial no país: a análise da vigilância entomológica dos vetores triatomíneos demonstrou a permanência, no território, de espécimes infectados por T. cruzi. Esse achado é relevante, pois indica risco de retomada da transmissão vetorial, uma vez que coexistem vetores infectados e uma população vulnerável.
Os resultados mostram que a doença de Chagas no Chile configura-se como um problema complexo, atravessado por processos migratórios, desigualdades sociais e territoriais e limitações nos sistemas de vigilância e no acompanhamento materno-infantil. Diante desse cenário, recomenda-se a adoção de uma abordagem de “Saúde Única”, com políticas transfronteiriças mais inclusivas, além da intensificação das ações de vigilância ativa, com enfoque territorial e participação cidadã, especialmente nas regiões norte e centro. Também se destaca a necessidade de melhorar as condições de vida e habitação, ampliando o acesso ao diagnóstico e ao tratamento, sobretudo entre populações mais vulneráveis, em articulação com países vizinhos.
A tese desenvolvida por Nayibe originou dois artigos. O primeiro, intitulado “O papel da migração na distribuição espacial da doença de Chagas em mulheres em idade fértil no Chile, 2018–2022”, foi submetido à revista Ciência & Saúde Coletiva. Trata-se de um estudo ecológico e descritivo com análise espacial que abrangeu as 16 regiões do Chile, com foco em mulheres de 15 a 49 anos.
O segundo artigo, “Perda de seguimento em crianças expostas ao Trypanosoma cruzi no período gestacional, Região Metropolitana de Santiago, Chile, 2020–2023”, consiste em um estudo de coorte retrospectiva que avaliou gestantes com doença de Chagas e seus filhos. A coorte incluiu 255 gestantes com diagnóstico confirmado de doença de Chagas, residentes na região, e 258 bebês nascidos entre o ano estudado.
O trabalho é fruto do doutorado em Epidemiologia em Saúde Pública da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz), que integra o consórcio para oferta do Programa VigiFronteiras-Brasil Fiocruz, e contou com a orientação da professora doutora Yara Hahr Marques Hökerberg (ENSP/Fiocruz).
Crédito da imagem: Ministério da Saúde
