Tese destaca desigualdades na distribuição espacial da incidência de Covid-19 entre indígenas e não indígenas em Mato Grosso do Sul
Segundo relatório divulgado pelo Conselho Global sobre Desigualdade, AIDS e Pandemias, durante a pandemia de Covid-19, países com maiores desigualdades socioeconômicas registraram taxas de mortalidade mais elevadas e impactos econômicos mais profundos. No Brasil, os povos originários estiveram entre os grupos mais suscetíveis à doença, em razão das profundas desigualdades sociais às quais estão historicamente expostos. Em 2022, a população indígena brasileira era de 1.693.535 pessoas, representando 0,83% da população do país. Desse total, cerca de 116,3 mil residiam no estado de Mato Grosso do Sul, que possui 43 terras indígenas distribuídas em 32 municípios.
Para ampliar o conhecimento sobre a vulnerabilidade epidemiológica da população sul-mato-grossense durante a pandemia, a enfermeira Edmara Honorio Santos desenvolveu a tese “Análise espaço-temporal da epidemia de Covid-19 nas populações indígena e não indígena residentes em Mato Grosso do Sul, no período de 2020 a 2022”. Os resultados apontaram uma distribuição espacial heterogênea das taxas de incidência entre as populações no estado, com variações significativas de distribuição entre indígenas e não indígenas, sugerindo a necessidade de aprofundamento sobre os fatores associados.
A pesquisa considerou indivíduos indígenas e não indígenas com idade maior ou igual a 15 anos, por se tratar de uma população adulta e, portanto, mais exposta. As oito etnias incluídas, Guarani, Kaiowá, Terena, Kadiwéu, Kinikinau, Atikum, Ofaié e Guató, concentram-se majoritariamente na região sul do estado, correspondendo a cerca de 68,5% dessa população, e são atendidas pelos pólos-base de Amambai, Antônio João, Caarapó, Dourados, Japorã, Paranhos e Tacuru. Entre os aspectos considerados, incluíram-se os casos positivos de Covid-19 em indígenas residentes nas terras indígenas de Mato Grosso do Sul. As unidades de análise corresponderam ao Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI) e aos seus 13 polos de saúde indígena.
Observou-se maior vulnerabilidade à disseminação da Covid-19 na população indígena no primeiro ano da pandemia, evidenciada pela distribuição de áreas de maior concentração de casos restritos ao ano de 2020. A população indígena apresentou diferenças significativas na magnitude dos riscos relativos entre as áreas de maior concentração de casos e os municípios que as compõem. Além disso, a distribuição de casos e óbitos ocorreu de forma distinta entre as regiões, essa variação pode estar associada a fatores como a circulação de diferentes variantes, a cobertura vacinal, o relaxamento das medidas de restrição da circulação de pessoas e a suspensão do uso de máscaras, bem como à precariedade das condições de trabalho. No que se refere aos territórios indígenas, foram registrados 4.777 casos e 115 óbitos por covid-19.
Ao analisar o risco relativo na população não indígena, observou-se maior intensidade em 2021, com 1,78%, evidenciando maior concentração da transmissão em áreas com alta densidade populacional e elevada conectividade regional, representadas no cluster principal pelo município de Dourados.
A análise da incidência, letalidade e mortalidade demonstrou diferenças na distribuição espacial da doença entre as populações indígena e não indígena, com maior carga da doença concentrada em determinados municípios e taxas mais elevadas na população não indígena.
Os achados indicaram maior crescimento das taxas de incidência de Covid-19 nos polos-base de Bonito (530,800%) e Antônio João (124,541%). Sidrolândia (6344834,56), Miranda (9043,11) e Bonito (7486,93) apresentaram as maiores taxas de incidência no período analisado. Em relação à mortalidade, Bonito (339,63), Aquidauana (323,53) e Miranda (178,68) registraram as maiores taxas, sendo que Aquidauana (848,99) e Miranda (595,132) também exibiram as maiores tendências de crescimento entre os polos-base. As tendências temporais identificadas no estudo evidenciam desigualdades no risco dessa população em seu território.
Segundo a tese de Edmara, a heterogeneidade das taxas analisadas neste estudo podem estar associadas a fatores de risco e exposição à Covid-19 distintos, assim como diferenciais de acesso a serviços de saúde, especialmente no que se refere ao diagnóstico e às Unidades de Terapia Intensiva (UTI). Nesse sentido, torna-se fundamental conhecer a distribuição dos riscos aos quais esse povo está exposto, sobretudo diante da introdução de novos patógenos. Em contextos diversos, evidencia-se que povos originários enfrentam diferentes condições de risco de adoecimento e morte em seus territórios.
Os resultados encontrados por Edmara originaram dois artigos: o primeiro, submetido à revista Ciência e Saúde Coletiva, utilizou dados do Sistema de Vigilância Epidemiológica da Influenza e do Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica (SIVEP-Gripe e eSUS-VE), além de dados demográficos do Censo Demográfico do IBGE 2022 e bases cartográficas municipais do Mato Grosso do Sul no sistema de referência SIRGAS 2000. O segundo artigo considerou 4.777 casos, 115 óbitos, por polo de saúde indígena registrados na Plataforma de Emergências em Saúde Indígena e as estimativas populacionais da SESAI.
O estudo foi desenvolvido como trabalho de conclusão do doutorado em Epidemiologia em Saúde Pública da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz), que integra o consórcio para oferta do Programa VigiFronteiras-Brasil Fiocruz. Sob orientação do Prof. Dr. Rui Arantes (ENSP/Fiocruz) e coorientação do Prof. Dr. Cosme Marcelo Furtado Passos da Silva (ENSP/Fiocruz).
* Crédito da imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil
