Estudo relaciona ocorrência de chikungunya na tríplice fronteira Argentina, Brasil e Paraguai, com a desigualdade de renda, urbanização e densidade demográfica

Historicamente, as áreas de fronteiras internacionais representam pontos críticos para a vigilância em saúde, devido a suas particularidades territoriais, como a intensa mobilidade populacional, que favorece a propagação de doenças. Um dos surtos transfronteiriços mais recentes foi o da chikungunya, registrado em 2023, na tríplice fronteira entre Argentina, Brasil e Paraguai. No Brasil, a doença vem avançando no estado do Paraná, onde 139 dos 399 municípios fazem fronteira com os dois países.

Neste cenário, o estudo “Eventos de Saúde Pública em áreas de fronteira brasileira com ênfase no estado do Paraná, 2010 2023”, desenvolvido por Daniele Akemi Arita buscou descrever a dinâmica dos eventos de notificação imediata para contribuir com a vigilância de fronteiras, fornecer subsídios para o debate científico sobre o tema e recomendações aos serviços de saúde. Os resultados constataram um padrão característico da ocorrência da chikungunya, com introdução viral pela tríplice fronteira, perpetuação em áreas vulneráveis e disseminação através de grandes centros urbanos.

O trabalho mostrou que a ocorrência, a intensidade da transmissão e a dispersão da doença estão associadas a fatores comuns como os fluxos populacionais transfronteiriços, as desigualdades socioeconômicas, à densidade demográfica, à ausência de planos para combate à arboviroses e a fatores climáticos. Juntos, evidenciam a necessidade de estratégias territorializadas com vigilância intensificada em áreas prioritárias, intervenções baseadas em evidências e adoção de metodologias preditivas para orientar políticas públicas eficazes no controle da chikungunya.

Em relação a dispersão da chikungunya, foram registrados 1.617 casos confirmados da doença, com uma distribuição espacial da taxa de incidência por 100.000 habitantes. Além disso, a pesquisadora também analisou o padrão de ocorrência de eventos de notificação imediata em saúde pública na faixa de fronteira do Paraná e Brasil. Foram registrados 50.628 eventos no estado sulista, com destaque para casos de sarampo (66,43%) e óbitos por dengue (11,52%). 

Em relação a razão de taxas (RT), no contexto paranaense, observaram-se maiores índices de malária extra-amazônica (32,41) e óbitos por dengue (1,39), enquanto o sarampo predominou em áreas não fronteiriças. No cenário das fronteiras brasileiras, destacaram-se o botulismo (5,74) e a hantavirose (2,49). Os resultados apontam que as regiões fronteiriças apresentam padrões epidemiológicos específicos e vulnerabilidades sanitárias que exigem estratégias de vigilância territorializadas, incorporando preditores climáticos e socioeconômicos; a implementação de protocolos específicos para regiões fronteiriças; e o fortalecimento da cooperação internacional em saúde.

Para chegar a tais conclusões, a pesquisa analisou 14 eventos da Lista Nacional de Notificação Compulsória: casos de raiva humana, paralisia flácida aguda, peste, malária extra amazônica, hantavirose, febre maculosa, febre amarela, cólera, botulismo, sarampo, rubéola, rubéola congênita, e óbitos por Zika e dengue, utilizando dados do DataSUS. Para cada evento, comparou-se a incidência entre municípios fronteiriços e não fronteiriços, em escala nacional e no estado do Paraná. 

A tese de Daniele resultou em dois artigos científicos. O primeiro, intitulado “Vigilância em saúde pública nas fronteiras: uma análise dos eventos de notificação imediata no Paraná (2010 - 2019)“, foi aprovado para publicação na revista Cadernos de Saúde Pública. O segundo, tem como título: “Disseminação espacial e fatores de risco a primeira epidemia de chikungunya no Sul do Brasil (Paraná, 2023)”, que será submetido à revista PLOS One

O trabalho foi desenvolvido no âmbito do Programa do Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia em Saúde Pública da ENSP/Fiocruz, que integra o consórcio para oferta do Programa VigiFronteiras-Brasil/Fiocruz, sob a orientação da professora Dra. Claudia Torres Codeço, e coorientação da professora Dra. Aline Araújo Nobre, ambas vinculadas ao PROCC/Fiocruz. 

 

*Crédito da imagem: Fiocruz Imagens