Multimorbilidad por enfermedades no transmisibles en Argentina y Brasil: asociación con factores de riesgo y tendencia temporal

Autor(a)
María Romina Cuezzo
Orientador(a)
Maria de Jesus Mendes da Fonseca
Coorientador(a)
Paulo Roberto Borges de Souza Júnior
Tipo
Tese
Programa consorciado
Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia em Saúde Pública (PPGEPI)
Categoria do curso
Doutorado Acadêmico
Ano da Defesa
Descrição

A multimorbidade por doenças não transmissíveis é definida como a ocorrência simultânea de duas ou mais condições crônicas em um mesmo indivíduo. Esse fenômeno acarreta consequências negativas para a qualidade de vida, aumenta o risco de mortalidade prematura e representa um importante desafio para os sistemas de saúde, historicamente centrados no manejo de enfermidades específicas.

Os objetivos deste estudo foram estimar a prevalência da multimorbidade (MM) por doenças não transmissíveis, avaliar suas modificações ao longo do tempo e sua distribuição espacial, bem como analisar a associação com variáveis biológicas, socioeconômicas e comportamentais em indivíduos com 18 anos ou mais na Argentina e no Brasil. Foram utilizadas como fontes de dados pesquisas populacionais: na Argentina, a Encuesta Nacional de Factores de Riesgo (2005, 2009, 2013 e 2018); e no Brasil, o Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (VIGITEL: 2006, 2009, 2013 e 2018) e a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS: 2019). Foram aplicados dois delineamentos de estudo: transversal e ecológico.

A multimorbidade foi definida com base em três condições crônicas: diabetes, hipertensão arterial e obesidade. Foram incluídas variáveis biológicas (sexo e idade), socioeconômicas (nível de escolaridade, estado civil e cobertura de saúde) e comportamentais (atividade física e hábito de fumar). Realizou-se uma análise descritiva por províncias/estados e regiões geográficas em ambos os países. Estimaram-se prevalências e intervalos de confiança de 95% (IC95%), utilizando variáveis de ponderação amostral. As mudanças na prevalência foram avaliadas por meio da comparação de quatro momentos temporais e mediante regressão linear simples. Aplicou-se regressão logística múltipla para estimar o efeito conjunto das variáveis explicativas. Foram calculados odds ratios ajustados (ORa) com IC95%, considerando-se p<0,05 como nível de significância estatística.

Observou-se maior chance de multimorbidade em indivíduos mais velhos e sedentários. Maior escolaridade e ausência de parceiro mostraram-se fatores de proteção. Não foi encontrada associação significativa com a cobertura de saúde, enquanto o tabagismo apresentou diferenças segundo sexo e país. Na Argentina, a prevalência foi superior e a idade de início foi menor. Observou-se tendência crescente significativa em ambos os países: na Argentina sem diferenças por sexo, enquanto no Brasil o aumento foi significativo entre mulheres. Maior prevalência foi identificada na região Nordeste da Argentina e na região Sudeste do Brasil no último ano analisado. Tendências ascendentes significativas foram observadas nas regiões Nordeste, Noroeste, Metropolitana e Pampeana da Argentina, e nas regiões Centro-Oeste e Norte do Brasil. A representação cartográfica evidenciou crescente heterogeneidade espacial na Argentina, com maiores prevalências em algumas jurisdições do Norte, enquanto no Brasil observou-se maior variabilidade entre estados desde a primeira medição. Essas diferenças podem estar associadas a iniquidades socioeconômicas, padrões distintos de estilo de vida e desigualdades no acesso aos serviços de saúde.

O presente estudo contribui para o conhecimento do perfil da multimorbidade, evidenciando pontos em comum e particularidades de cada país, que devem ser consideradas na formulação de políticas de saúde integrais, centradas nas pessoas.