Cobertura vacinal infantil em zonas de fronteira e não fronteira na Amazônia Legal brasileira: iniquidades entre indígenas e população geral no período pré e pós pandêmico de covid-19
Na última década, o Brasil tem enfrentado uma redução nas coberturas vacinais entre crianças menores de um ano, tendência que se agravou com a pandemia de covid19. Considerando a relevância desse cenário para populações historicamente vulnerabilizadas, particularmente na Amazônia Legal, esta tese tem como objetivo descrever as coberturas vacinais em crianças menores de um ano de idade indígenas e da população geral, residentes em áreas de fronteira e fora da área de fronteira na Amazônia Legal brasileira, entre 2010 e 2021, bem como analisar o efeito da pandemia de covid-19 sobre as coberturas vacinais dos diferentes estratos populacionais e geográficos estudados.
Trata-se de um estudo ecológico de séries temporais, com abordagem descritiva, baseado em dados secundários sobre doses aplicadas de oito vacinas selecionadas, no período de 2010 a 2021. Foram calculadas as coberturas vacinais médias bianuais e as razões entre as coberturas vacinais e respectivos Intervalos de Confiança de 95%, entre quatro estratos populacionais e geográficos: crianças menores de um ano indígenas de área de fronteira, crianças menores de um ano indígenas fora de área de fronteira, crianças menores de um ano da população geral de área de fronteira e crianças menores de um ano da população geral fora de área de fronteira. Foram também analisadas as tendências temporais das coberturas vacinais por meio da regressão Joinpoint e utilizada a regressão segmentada para predizer os valores de cobertura vacinal nos anos pandêmicos (2020 e 2021), comparando-os com os valores observados.
Os resultados evidenciaram que, no início da série histórica, as coberturas vacinais na população geral superavam as da população indígena, tanto em áreas de fronteira quanto fora delas. Para a população geral, observou-se queda nas coberturas vacinais já nos primeiros biênios da série histórica, tanto em áreas de fronteira quanto fora delas. Para a população indígena, verificaram-se incrementos progressivos nas coberturas vacinais ao longo dos anos, embora os valores tenham permanecido abaixo das metas preconizadas para a maioria das vacinas. Nos anos mais recentes, observou-se uma inversão no padrão, com os estratos indígenas apresentando coberturas vacinais mais elevadas do que a população geral, em especial nos anos pandêmicos. As iniquidades entre os estratos, portanto, reduzem ao longo dos anos, de modo que, nos dois últimos anos, deixam de ser observadas ou passam a indicar desvantagem para estratos da população geral, especialmente aqueles situados em áreas de fronteira.
Os achados desta tese evidenciam uma situação de vulnerabilidade epidemiológica na região, sobretudo nas zonas de fronteira internacional que são particularmente suscetíveis a baixas coberturas vacinais, o que aponta para o risco elevado de ocorrência de surtos, reintrodução de doenças e aprofundamento das desigualdades em saúde no país. Esforços devem ser feitos para fortalecimento da atenção primária nas áreas remotas da Amazônia, e para melhoria contínua do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena.
