Fatores associados à variação nas coberturas da vacina combinada para difteria, tétano, pertussis, hepatite B e Haemophilus influenzae tipo b (Pentavalente) em menores de 1 ano, nos municípios de fronteira do Brasil, 2014-2024
A vacinação infantil é uma das intervenções mais custo-efetivas em saúde pública, e a cobertura vacinal constitui indicador sensível das desigualdades sociais, territoriais e da organização dos sistemas de saúde. No Brasil, apesar da consolidação histórica do Programa Nacional de Imunizações, observa-se nos últimos anos queda e heterogeneidade das coberturas, fenômeno especialmente relevante em áreas de fronteira, marcadas por mobilidade populacional, demandas transfronteiriças e desafios operacionais. A faixa de fronteira brasileira compreende 588 municípios, distribuídos nos arcos norte, central e sul, organizados em 17 sub-regiões com características demográficas e assistenciais singulares, ainda pouco exploradas na literatura sobre imunização.
O objetivo desta tese foi analisar a variação temporal e os fatores associados às coberturas da vacina pentavalente em menores de um ano residentes em municípios de fronteira, entre 2014 e 2024, considerando dimensões territoriais, sociodemográficas e de organização dos serviços de saúde. A tese foi estruturada em dois estudos ecológicos. O primeiro realizou análise de série temporal por regressão de pontos de inflexão (joinpoint regression analysis), abrangendo 2014 a 2023. Foram analisadas unidades da federação com fronteira internacional, arcos, sub-regiões e cidades gêmeas.
Os resultados mostraram heterogeneidade das coberturas da pentavalente, com desigualdades marcantes entre os arcos, sendo o arco norte com pior cenário. Identificou-se tendência decrescente da cobertura vacinal na faixa de fronteira ao longo do período. O segundo estudo utilizou modelo gaussiano para identificar fatores associados à cobertura vacinal nos 121 municípios da linha de fronteira, com foco em 2023 e 2024, após a implementação da Estratégia de Vacinação nas Fronteiras (2022). Os resultados evidenciaram novamente menores coberturas no arco norte, sendo caracterizado como arco de maior proporção de população rural, indígena e estrangeira, além de piores indicadores socioeconômicos. Observou-se associação negativa da cobertura vacinal com a localização no arco norte, menor cobertura da Estratégia Saúde da Família, maior população de estrangeiros, bem como associação inversa entre Índice de Desenvolvimento Humano Municipal e cobertura vacinal.
De forma integrada, os estudos demonstram que a cobertura vacinal na fronteira resulta de interação complexa entre território, organização dos serviços e dinâmicas populacionais, mais do que apenas de condições socioeconômicas tradicionais. A tese evidencia que ações pontuais não sustentam coberturas adequadas, reforçando a necessidade de estratégias contínuas, territorializadas e sensíveis às especificidades locais. Os achados também destacam a importância de abordagens de vigilância transfronteiriça, contribuindo para o aprimoramento das políticas públicas de vacinação e para o fortalecimento de modelos de gestão adaptados à complexidade desses territórios no âmbito do Sistema Único de Saúde.
