Estudo revela fatores socioambientais e institucionais por trás da alta endemicidade da leishmaniose e dos desafios no controle da raiva no Oiapoque
Localizado no extremo norte do Brasil e com cerca de 27 mil habitantes, o município de Oiapoque constitui um território amazônico singular, onde Brasil e Europa se encontram por meio da fronteira com a Guiana Francesa, um Departamento Ultramarino da França. Trata-se de uma fronteira viva e dinâmica, caracterizada por intensos fluxos de pessoas e animais, pela rica biodiversidade ecológica e cultural, por constantes transformações ambientais e por persistentes desigualdades sociais e institucionais. Nesse cenário complexo, também emergem doenças zoonóticas silenciosas e historicamente negligenciadas, que desafiam os modelos tradicionais de vigilância em saúde. Foi nesse contexto que a enfermeira Silvia Claudia Cunha Maués desenvolveu a tese “Uma perspectiva de Saúde Única para a vigilância das doenças zoonóticas na fronteira franco-brasileira”.
No estudo, Silvia analisou os padrões espaciais e temporais da leishmaniose tegumentar e dos atendimentos antirrábicos humanos em Oiapoque entre 2013 e 2022, bem como os fatores que podem influenciar a ocorrência desses agravos e apontando caminhos para a construção de uma vigilância integrada em Saúde Única, fortalecida pela cooperação transfronteiriça.
Os resultados evidenciaram a persistência da transmissão da LT em Oiapoque, expressa por incidência elevada (151,5/100 mil hab.), importante proporção de casos importados (55,4%) sobretudo associados a áreas de garimpo (55,4%) no território da Guiana Francesa (35,5%), refletindo um agravo transfronteiriço, marcado por um movimento pendular entre os dois lados da fronteira. Entre os casos autóctones, dos 398 registros, observou-se um perfil ocupacional predominantemente masculino (76,4%), com predominância na faixa etária de 20 e 39 anos (47%), baixa escolaridade e, em sua maioria, pessoas pardas (66,6%). Já na zona rural, observou-se maior frequência entre a população indígena (55,2%), o que reforça que a transmissão da LT se mantém contínua em todo o território. Esse cenário está diretamente relacionado à degradação ambiental, às influências climáticas e às desigualdade sociais e no acesso aos serviços de saúde.
Quanto aos atendimentos antirrábicos humanos, foram registrados 345 casos durante entre 2013 a 2022, com maior ocorrência em homens (59,4%), adultos jovens (29,3%) e crianças até 10 anos (25,8%), majoritariamente pardos (65,2%), estudantes (18,3%) e com baixa escolaridade (30%), evidenciando o perfil socioeducacional local. Em 91% dos casos, os agressores foram cães, embora haja subnotificação de episódios com morcegos. Quase metade dos animais (50%) tinha condição desconhecida ou havia desaparecido, dificultando a observação sanitária.
A tese envolveu duas abordagens, a primeira quantitativa, que utilizou dados do SINAN, além de indicadores sociodemográficos, econômicos, ecológicos e climáticos de bases públicas oficiais. As análises incluíram estatística descritiva, correlação de Pearson e mapeamento espacial. A segunda abordagem foi qualitativa. que compreendeu entrevistas semiestruturadas com gestores e técnicos dos setores de saúde humana, animal e ambiental, bem como representantes da sociedade civil, além da realização de um workshop participativo internacional com atores da Guiana Francesa. Os achados foram sistematizados em matrizes FOFA (Forças, Oportunidades, Fraquezas e Ameaças).
DESDOBRAMENTOS - Além dos resultados da tese como contribuição científica, o processo também gerou produtos decorrentes das parcerias internacionais estabelecidas entre atores de Oiapoque e da Guiana Francesa durante o workshop participativo transfronteiriço, intitulado “Saúde Humana, Animal e Ambiental: integrando saberes e ações para a prevenção das doenças zoonóticas na fronteira franco-brasileira”, que reuniu cerca de 60 participantes de instituições públicas, acadêmicas, representantes da sociedade civil e comunidades indígenas de ambos os países.
O primeiro produto foi organização de um Painel “Um só mundo, uma só saúde – Quando territórios e saberes se unem diante das epidemias” apresentado na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), em Belém/PA no dia 12 de novembro de 2025, como parte integrante da Caravana IARAÇU, uma parceria entre pesquisadores da França e Brasil. O segundo produto resultou na produção de um filme-documentário que registrou os debates, articulações e vivências do workshop binacional em Oiapoque sobre zoonoses, além de experiências sobre doenças transmitidas por Aedes, reunidas em um encontro no Rio de Janeiro. A iniciativa, parte do projeto FEFACCION (Fiocruz/RJ e Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento – IRD/França), promoveu um diálogo entre cientistas, lideranças locais e organizações internacionais, com foco na vigilância participativa e na cooperação em Saúde Única. Com uma abordagem sensível e informativa, o filme teve como objetivos discutir os impactos das mudanças climáticas na emergência de pandemias, valorizar a cooperação científica franco-brasileira, apresentar experiências concretas de mobilização comunitária e contribuir com propostas para a COP30.
Para Sílvia, o estudo resultou na proposta de um modelo de Vigilância em Saúde Única voltado especificamente para regiões de fronteira. A ideia central é a criação de um Comitê Local de Saúde Única, reunindo instituições de diferentes setores para fortalecer a governança e ampliar a cooperação científica e transfronteiriça. O modelo também propõe ações práticas e de alto impacto, como capacitações conjuntas, protocolos padronizados, campanhas móveis e uso de painéis digitais para monitoramento em tempo real. A expectativa é de que essas recomendações contribuam diretamente para o Centro Transfronteiriço de Clima e Saúde, atualmente em fase de implantação em Oiapoque, oferecendo bases para estratégias integradas de vigilância da LT e da raiva. Sílvia defende que a efetividade da vigilância dessas zoonoses exige uma articulação institucional sólida entre diferentes níveis de gestão e diplomacia. Sua tese reforça que a abordagem de Saúde Única não apenas reconhece a complexidade dos territórios de fronteira, mas também oferece caminhos concretos para transformar vulnerabilidades em capacidades e criar modelos replicáveis.
O trabalho foi orientado pela Prof.ª Dra. Cláudia Torres Codeço e coorientada pelo professor Dr. Oswaldo Gonçalves Cruz, foi desenvolvida no âmbito do Doutorado Acadêmico em Epidemiologia em Saúde Pública da ENSP/Fiocruz, que integra o consórcio para oferta do Programa VigiFronteiras-Brasil/Fiocruz.
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